domingo, 11 de janeiro de 2015

Um Relato do Inicio, retirado dos diários da esposa de Tertuniel



Um relato do Início 
Retirado dos diários da esposa de Tertuniel

A história é longa e creio que não valha a pena contar-lhe; você não seria capaz de entender. — ele começou a contar, chateado com minha peremptória insistência a conhecer sua história. — A muito, muito mais tempo do que um mortal poderia conceber, no irromper dos primeiros acordes da Canção que fez e mantém o mundo, havia um trono vazio no alto de uma escadaria numa cidade deserta feita de ouro e de prata, acima de tudo que havia até então; não que houvesse muita coisa:
As estrelas já reinavam em sua argêntea morada, clamando serem filhas de deuses e luzes que seja lá o que fossem; já haviam se derramado na Criação; o Abismo já existido àquela altura, mesmo que as criaturas dentro dele ainda não houvessem emergido, vivo e dotado de uma certa inteligência primitiva que o fazia perceber não só sua existência como também a existência da Origem, a luz dourada que brilha acima da Cidade Elevada, é dela que derivam os três precursores da minha raça.
 Yaveh, o primeiro, aquele que se assentou no Trono, o mais poderoso de todos; em seguida veio o brilhante Heylel, o insubordinado e o último Anjo Superior, a quem chamo mãe, era uma criatura sombria e estranha, temida por muitos, Izrail, a quem mais tarde vocês chamariam Morte. Yaveh assentou-se no Trono do Sétimo Céu, e utilizando-se da força da Origem criou todos os anjos, começando pelos sete mais elevados: Miguel, Gabriel e Rafael, que posteriormente seriam enviados a a Terra nos dias anteriores ao dilúvio e aqui permaneceram; Uriel, Sealtiel, Jegudiel e Baraquiel assentaram-se nos portões que dividem o Sétimo e Sexto Céu, guardando o caminho para o Trono, nesta época, minha mãe os comandava.
Meu pai era um Querubim, a ordem dos anjos guerreiros, comandados nesta época pelo brilhante Heylel, e ficou ao seu lado quando este decidiu tomar à força o Sétimo Céu e o Trono. Não havia muita esperança, nenhum dos Serafins e dos Arcanjos aderiu a revolta, mas um terço de todos os anjos estavam ao lado de meu pai e seu líder, a batalha foi incomensurável; minha mãe invadiu secretamente o Sétimo Céu para obter a resposta de como vencer a batalha, a Origem a respondeu, mas também criou junto a ela meu irmão, Azrael e algo ainda mais mortal que os primeiros anjos.
Antes do último golpe, ela encontrou-se com o general dos exercitos de Heylel, meu pai, dando-lhe uma oportunidade de rendição que lhe foi negada. No entanto, os dois apaixonaram-se e coabitaram, ardendo em amor e glória na noite que antecedeu a última batalha, eu fui concebido naquele instante, mas ainda não havia aberto meus olhos, adormecido enquanto durasse a guerra.
Comandados por minha mãe, todas as forças do Céu ergueram-se contra Heylel e Samael, meu pai, jogando-os do Sexto Céu, jogando-os no Abismo. Não havia como derrotar os anjos caídos definitivamente, soube Izrail, mas havia como criar uma prisão praticamente inexpugnável, juntando a energia da queda de Heylel, com o poder dela e de Yaveh; cinco céus foram criados para guardar os inimigos do Trono.
Cada vez mais abaixo, prendendo-os em energia densa até que o Segundo Céu explodisse numa nuvem de escuridão e luz que criou todos os planetas, toda matéria, e os corpos físicos das estrelas que decidiram presidir um lugar próximo dos acontecimentos.
O primeiro céu é na verdade, o céu de todos os planetas, mas costumamos entender que este lugar é aqui, a abobada azul acima da Terra, onde finalmente todos os anjos caídos foram presos.
Era necessário, porém um guardião cuja própria existência seria a chave que trancaria esta prisão; o fim da magia antiga, longe demais da Canção para que pudessem entendê-la: Adão e sua consorte.
Condenada ao exílio por ter subido ao Sétimo Céu, tocando a Origem, e também concebido um filho com Samael, minha mãe foi obrigada a partir e moldar este ser, nunca mais retornando aos céus mais elevados; ela partiu levando consigo o filho Azrael, a mim em seus braços, uma criança ainda sem nome, e seu segredo: uma espada forjada com o poder do Abismo e da Origem, uma espada de vidro, viva e poderosa o suficiente para banir qualquer existência. Fora escolha sua não matar Heylel ou mesmo tomar para si o Trono, matando Yaveh, pois o poder para tanto estava em suas mãos, dada a ela pela própria Origem quando havia estado no Sétimo Céu.
 Na fronteira, onde por sim se jogaria, caindo como os caídos que ajudara a derrotar; ela me ergueu virado para a Cidade de Prata e os anjos que a assistiam. “No Sexto Céu nasceste e aqui será batizado, meu filho, meu último ato antes da queda; aqui vos apresento Tertuniel, Encontro Divino”. Ela disse e só então acordei, vislumbrando pela primeira e última vez a cidade cuja luz ficou em meus olhos.

segunda-feira, 24 de março de 2014

A Estrada Para o Fim de Tudo Nunca Termina...


"Caminho... Pedras esquecidas... Outro lado... O rio do esquecimento... A ponte do final do caminho, jogar-se sem hesitar... Mas a morte não faz acordos… A morte não tece promessas… A morte crocita e reverbera sem titubear, sussurrando como lhe convém."

Confiram aqui o booktrailer do ebook:


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

E mais um corvo parte ao alvorecer...

O segundo conto e Os Corvos sai também em pdf, aqueles que conferiram A Estrada no Fim de Tudo não devem perder esse segundo ato:

"Ouvir o nome dele é como ouvir todos os sons do universo em seus ouvidos e ver a face de todos os deuses brilhando frente aos seus olhos. É como sentir os sonhos de cada criatura viva em seu coração. Você ouve o seu nome e entende a origem e o fins de todos os mundos, você entende o sentido de toda sua vida e então... irremediavelmente, você morre."


sábado, 16 de novembro de 2013

A voz da Sacerdotisa


Delírios Hiperbóreos 
A voz da sacerdotisa

Lá, do alto de sua torre de marfim, no Templo dos Mistérios de Hiperbórea, canta a sacerdotisa para as salas vazias a sua frente. – entendam, o templo está sempre vazio, pois os hiperbóreos adoram somente a Apolo e a sacerdotisa adora a todos os deuses.
E do alto dos seus próprios mistérios ela fala por si mesma de tempos antes que sua vida existisse. Ela chora, pois compreende estar sempre só na majestade divina que exerce. Seu consorte será sempre um Deus.
De fato, ela não entende a si mesma, mas entende o mundo como nenhum homem poderia entender – nem sobre o mundo e nem sobre ela. – estudou os mistérios por toda a vida e além e antes desta. Ela era o próprio mistério encarnado em si próprio. A Deusa em forma pré-humana.
Ainda há muita coisa sobre mim que se é necessário saber e não há tempo suficiente no mundo para que alguém o saiba.
Ela chorava e suas lágrimas cobriam os mundos que pairavam sobre o poço de Urd, o caldeirão de ferro no meio do salão de mármore. Seu hálito fresco era o vento que tocava a face dos iniciados e sua voz era como o sussurro silencioso que a todos chama e a poucos recebe.
Por hora, seu sussurro a captava nas mil almas que possuía e nos mil amantes que carregava no coração gelado. Ela era a única dentre os hiperbóreos a quem o sorriso eterno jamais foi dado. Ela era a vida que pulsava no contato com os deuses esquecidos.
Por muito, esperou o pouco que pediu ao Destino, mas o Grande Pai é tão austero quanto bondoso e raramente caminhava nas terras em que sempre é verão. A sacerdotisa sabia, mas ousava tentar ignorar, que não adiantava pedir auxilio ao destino, pois seu caminho era livre, como as linhas da mão que inexistiam em sua pele clara.
Tudo que eu sei é que o silêncio da noite não há de calar o vento e os sussurros.
Não havia noite, apenas o silencio noctâmbulo que caminhava oco por sobre os salões, ela podia vê-lo e até tocá-lo se quisesse, mas de que adiantava? Sentia-se cansada demais para pensar...
Seu corpo pulsava sem que ela mesma o usasse. Havia o passado que agora era presente, o ciclo que sempre se repete, ela chorava de novo, ela havia sido dada de novo, ela prometera de novo. Ela não pertencia a si mesma de novo.
Mas há coisa que apesar de misteriosas deveriam de quaisquer formas ser explicadas. Há muito a jovem fora virgem e se entregara ao Deus que a Deusa trouxera. Na noite escura seus cabelos loiros foram tocados e o livro dos rituais fora aberto pela primeira vez. Ali era se tornara a maga, mas logo se perdera nas areias do tempo e do sacerdócio.
O livro agora havia sido aberto, como o coração da sacerdotisa que fora talhado em mil pedaços a cada ano do ciclo. Seus cabelos, agora negros como a própria noite, haviam sido novamente tocados e ela se entregara e entregara seu corpo para uma nova magia.
Em seu ventre o filho do mundo nascia, mas ela era oca por dentro e ele sairia de sua boca como uma profecia não contada. Uma profecia dita há muito tempo quando ela havia amado. As palavras não eram novas, mas o sentido começava a ter novo significado.
A Sacerdotisa via a si mesma e se conhecia através de seus próprios olhos.
Eu vivi vidas além dessa vida e vi coisas além das coisas que se pode ver. Eu vi o céu irromper-se do horizonte no principio dos tempos. Eu vi Deus e ele sabia meu nome. Meu verdadeiro nome.
Sim, seu nome, pois muitos tivera ao longo dos séculos. Pois existia desde o tempo antes das estrelas, mesmo antes de estar viva. Fora Tharzanita, Guarczenacal, Sofia, Amanda, Trevas, Gea, Pandora, Eurídice, Flavia, Alessandra, Alexandra, Cleópatra, Pagu, Channel, ela fora todas as mulheres do mundo antes de ser Tríade, a sacerdotisa do templo dos mistérios. A Deusa.
Triade ouvia o som de sirenes ao longe, talvez advindos do mar principal que era sempre gelado como o coração dos hiperbóreos. Mas não se interessava, os sons, assim como os sonhos, eram apenas ilusões e reflexos de sua própria alma no mundo.
Havia apenas ela e todo o resto era um sonho, um grandioso sonho sonhado por todos os deuses que havia dentro dela.
O Senhor coração, A Senhora Mente, A Sacerdotisa Alma, o Padre Corpo, o Bispo Espírito e o Xamã Existência partilhavam juntos aquela forma feminina para ensinar os mistérios a aqueles que nunca os ouviriam. Ela estava condenada a sempre entender, mas jamais ser entendida.
Eu sou aquela que nenhum homem jamais levantou o véu, eu sou tudo que foi, que é e será. O fruto que pari foi o sol.
Eu sou Maria, eu sou Isis, eu sou Cedriween, eu sou a Religião.
Ela ainda chorava, mas suas lágrimas já não eram mais cheia de lastimas. Seu amor cobria o mundo de paz e felicidade, mas ambos jamais seriam eternos. Pois ela era a mulher que fazia pulsar o mundo e como toda mulher, era tão mutável quanto à lua em seus quatro mistérios e faces.
Apesar de cansada, por um ritual que nem mesmo realizara por si mesma. Ela agora voltava a sentir-se cheia e completa. Sua visão erguia-se acima dos homens e das coisas vãs. Ela podia ouvir Apolo lá fora a chamando e podia ouvir Isis dentro dela gritando por ele.
Ainda não era a hora de se libertar. A torre de Marfim que ainda é a torre das ilusões de todos os homens ainda não estava pronta para ruir. Do alto-mar principal viriam ainda mil barcos e do alto da torre ela os veria passar a espera de cumprir a profecia para o qual fora criada.
De fato, não podia ser entendida em suas palavras. Pois ela era a própria religião e ela precisava de alguém para professá-la. De um homem que através de seus lábios lhe tocasse a alma e lhe abrisse o espírito. O homem que a faria parir a luz de um novo conhecimento. O Deus consorte da Deusa, aquele que jamais a subjugaria e nem seria inferior a ela, sua alma gêmea.
Suas mãos brancas adquiriam um tom vermelho, advindo do cansaço de olhar o espelho de si mesma. Ela ainda cantava sua canção silenciosa e o noctâmbulo ainda vagava indolente pelos mundos dos salões.
Os salões que na verdade eram sua alma, o templo que de fato era seu corpo erigido no País do Verão, o noctâmbulo que nada mais era do que sua sombra, seu duplo que prediria sua morte quando a hora fosse chegava, mas que por hora apenas a fazia lembrar das outras vezes que morrera e os segredos que nessa vida ela não podia deixar morrerem com ela.
Esta era sua última vida, não por imposição do destino, mas porque esperava cumprir seu papel no mundo. O tempo ainda não era chegado, mas chegaria tão breve quanto ela aprenderia mais sobre a Anciã do corpo jovem. Sobre os mistérios da gruta dos mistérios. O dia em que o salão ruiria em verde fogo e vermelho sangue estava tão próximo quanto o hálito do vento norte.
Hiperbórea a chamava e ela não podia mais escondê-la dentro de uma caixinha de pandora, pois até mesmo a esperança se fora. A verde fada estava lá, no salão das florestas, drogada, nua, bêbada e prostituída. A esperança se perdera para sempre por entre as árvores da solidão.
Eu sou aquela que caminha em Calêndula, cheia de promessas e tristezas, aquela que espalha sobre o chão doces duvidas que serão apanhadas por incautos visitantes. Eu sou aquela que ama e foi amada, mas que jamais se entregará nas mãos de alguém que não seja o Escolhido.
Sua respiração se mantinha entrecortada e o livro ainda precisava ser terminado. Ainda havia muito para se conhecer e muitos feitiços silenciosos para despertar do seu interior.
Logo, em mais um de seus sonhos ela estaria no Templo das Estrelas, onde o príncipe negro a mostraria seu sorriso de escárnio e sua amizade eterna. Onde ela sentaria nas escadas, sorrindo enquanto chorava a espera do príncipe Branco.
Haviam muitos príncipes e talvez nenhum deles fosse o escolhido ou talvez assim como ela, o escolhido tivesse muitos nomes e fosse muitos príncipes. De novo, ela recitou a profecia a espera de que novos versos viessem.

O príncipe branco e o príncipe negro juntos estão sob o poço de Urd
Atrelados caminham com suas espadas mortais
A caminho do coração espectral
Cuidado com o cálice ó mortal
Posto que a vida é uma só
Para aqueles que nunca renascem.

E de fato, os novos versos vieram, mas apenas o primeiro era dedicado a ela. O príncipe Branco e o Príncipe negro juntos estão sob o poço de Urd. Mas podiam não ser os mesmos príncipes do Templo das Estrelas. Afinal ali estava entre suas lembranças e as coisas que viveria, mas não vivera de fato. A profecia era tão incerta quanto um sonho de uma noite de verão na terra em que seria eternamente dia.
Antes porem de esquecer os novos versos, os escreveu. Era uma iniciada e aprendera a sempre guardar os mistérios para si e depois mostra-los ao mundo. Se não tivessem significados para ela, de certo o destino se encarregaria de levá-los a quem poderia os entender. E notou, como não poderia deixar de notar, que as palavras juntas formavam um prato ou copa, o Santo Graal do conhecimento.
Estava cansada e ainda pensava no amanha que talvez não viesse e antes de esperar sua visita ao templo das estrelas, resolveu ir visitar um velho amigo no mundo dos sonhos.
Ela visitaria a pessoa a quem ela mais ansiava conhecer.
Ela mesma.


sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A Estrada No Fim de Tudo

Como a maioria de vocês deve saber, estarei lançando na semana que vem um ebook promocional com o primeiro conto do meu novo projeto: Os Corvos; mas para deixar vocês já com um gostinho, aqui disponibilizo o primeiro capitulo da obra e um vídeo sobre o conto feito para o Egoísmo Pitagórico, meu canal do youtube.

Que a morte sempre ouçam suas súplicas,
Thiago Félix



***
Primeira Parte
O senhor do meu sofrimento

Depois de morta, ficarás um dia estendida, sem que, para ninguém, reste qualquer lembrança tua, pois nunca foram tuas as rosas da Piéria.
Desconhecida, então, mesmo no Hades, tua alma errará entre as sombras, as obscuras sombras esquecidas dos mortos…”
(Safo, fragmento número 63)
F


  azia frio e o frio que fazia não era essa que a carne nos conforta, também pudera, meu lugar era bem longe das caldeiras, quase no fim do vagão. O meu assento era um par de irônicos números que sugeriam uma lembrança do que eu abandonara, proporcionando um aviso do que estava por vir: trinta e três, a idade em que cristo fora crucificado, morto e sepultado.
O número perfeito para conduzir um ateu até os mais profundos abismos circulares do inferno. Um número talvez perfeito demais para que justamente eu o obtivesse, mas talvez eu fosse realmente a pessoa certa, aquela que mesmo na ansiedade prestaria atenção nesse detalhe tão ínfimo que passaria despercebido pela maioria.
O trem para o inferno é lento, arrastando-se em ansiedade e temor, como se o passar dos minutos pudessem atravessar os milênios sem sequer chegar a um destino, mas havia um destino, isso era uma certeza eminente. Vagar a esmo pela eternidade, com a crescente duvida de quais seriam meus tormentos não era o bastante, não era nem sequer perto de uma punição adequada.
Não para mim, eu sequer conseguia pensar no sofrimento que me seria infringido; havia uma paz mórbida em meu coração que o ambiente teimava em não querer perturbar. Eu estava pronto, esse era o problema, eu estava pronto para aceitar o meu destino e não havia nada mais que pudesse me fazer tremer diante dessa perspectiva.
Era de se esperar que o trem para a danação eterna estivesse abarrotado de pessoas a gritar e a chorar por perdão, mas a realidade era completamente diferente do que qualquer um pudesse imaginar. Vez por outra, havia um gemido baixo de tristeza, o som baixinho de um choro, tímido demais para se tornar maior que um sussurro: mas era só e deveras momentâneo para sequer incomodar.
Em verdade, aquilo não surpreendia: as cadeiras ocupadas eram poucas e espaçadas, não havia gente suficiente ali para uma grande comoção. Todos se mantinham calados, impassíveis, extremamente solitários e alheios a quem mais estivesse perto.
Nem mesmo a ruiva moça que chorava era digna da atenção de quaisquer dos passageiros, egoísmo é uma característica comum a todos os condenados, eu não estava sendo diferente a observando com minha indiferença característica daqueles que já perderam tudo.
A númerologia parecia brincar com sua significância ou talvez aquele fosse o modo da minha mente trabalhar ante a ociosidade das horas que se passaram desde que eu havia morrido. De qualquer modo, em condenados éramos cinco, um número bruxólico, digno de um sabá e, talvez, se estivéssemos vivos, poderíamos nos juntar em um circulo e fazer uma invocação ao anfitrião que nos esperava.
O sexto passageiro, ciente do número maldito que possuía, era um sedutor demônio que guardava a porta traseira enquanto fumava. Seu cigarro era inacabável, avermelhando-se junto com seus olhos castanhos a cada baforada. Vendo-o, percebi porque o pecado era tão atraente: por detrás daquela sugestiva camiseta colada, um torço de alabastro sugeria-se voluptuoso e eu já em decadência não ousaria hesitar se ele me chamasse para decair um pouco mais no acarpetado chão do trem.
Ele me sorriu, ciente dos pecados que passavam sorrateiros pela minha cabeça. Sua língua, extremamente desejosa lambeu vagarosamente seus rubros lábios e eu a senti como se tocasse os meus. Seu olhar indagou por permissão se voltado para o último dos presentes, erguido portentoso e magnificamente impassível na porta da frente, este, porém, moveu lentamente sua cabeça em negativa. E o sorriso triste e decepcionado que o demônio me lançou quase partiu meu coração, sua mão, porém, discretamente fechou-se e eu senti seu rígido e prazeroso toque num único efêmero momento.
Meus olhos então se encontraram naquele que me negara o prazer voluptuoso do pecado: o sétimo passageiro, portador do número que representa a divindade; como tal, ele era parte da luz que povoa o mundo.
Austero com sua espada flamejante, guardando a porta que levava ao maquinista, estava um anjo. Sua alva pele brilhava cintilante como se possuísse o sol em si mesma; parecendo ainda mais brilhante que sua dourada armadura.
Seus olhos continham os céus, seus lábios o fogo, seus cabelos o sol. Sua beleza não era dotada de metáforas, ele era, de fato, forjado das partes mais grandiosas de toda criação. Seu corpo era o ápice do gênesis e eu não podia deixar de perceber sua semelhança com o demônio, contudo, ele era algo maior, magnífico. Sua beleza não era apática, fútil e voluptuosa, era, em verdade, carregada de sabedoria, pureza, beleza e significância.
Vê-lo não significava adora-lo ou mesmo o desejar, vê-lo era como o amar e sentir dentro do peito, o desejo intrínseco de ser como ele, para um dia ver em seus olhos a admiração.
Entretanto, tudo que eu via naquele céu era decepção e repulsa. Nunca antes eu me sentira tão vulgar, tão baixo, tão mesquinho e pela primeira vez, dentro do trem que me levaria ao inferno, eu senti o peso de ser punido.
Nenhuma dor era mais poderosa do que aquele olhar.
Então, para evitá-lo, pela primeira vez eu voltei meu olhar a algo que não fosse minhas próprias divagações: a ruiva garota que chorava. Esta era de um branco róseo tal qual uma matrona de cera, seus cabelos eram de um vermelho acobreado sem viço, mortos como seus verdes olhos também pareciam estar.
Levantei-me, tentando caminhar em sua direção. O ar era denso como o peso da culpa e cada um de meus passos mais se assemelharam ao caminho para o calvário do que a uma simples caminhada. Ela era incapaz de perceber minha presença, absorta em seus próprios pensamentos.
A toquei gentilmente e sorri, o mais cálido e simpático que pude, mas essa é uma atitude incomum no inferno e mesmo estando apenas em seu caminho, parecia um erro agir daquela maneira. Ela olhou nos meus olhos perdida e eu notei que ela havia morrido jovem, jovem demais para ainda estar deveras assustada com tudo aquilo.
Eu não. Eu já havia aceitado a morte, assim como aceitei a solidão enquanto estava vivo. Também pudera, apesar de ali aparentar ter não mais que vinte e poucos anos, quando meu coração finalmente parou por puro cansaço, seis décadas já haviam se passado desde que eu cometera o pecado que me trouxera até aqui.
Sentei-me ao seu lado, sem fazer pergunta alguma. O motivo de sua condenação era obvia: sangue jazia coagulado pelo meio de suas pernas, indicando não só a forma como morrera, mas também o motivo por ela estar aqui, chorando feito uma criança.
— Você estava grávida de quantos meses? —  perguntei.
— Seis —  seus olhos exprimiam incredulidade, como quem esperava gritos ao invés de perguntas. — Era tarde demais para que algum remédio fizesse efeito. Meus pais tentaram me dissuadir da idéia, mas Carlos havia me largado e eu precisava me vingar dele de alguma forma. Não sei por que eu cometi tamanha burrice, eu sou uma tola, uma idiota! — ela começou a chorar copiosamente, chamando atenção dos sobrenaturais seres que nos vigiavam, mas não o suficiente para que qualquer um deles esboçasse alguma reação. — Eu imitei a idéia de um seriado, coloquei um ferro em mim mesma, esperando assim que o bebe morresse, mas acabei pegando uma infecção e morrendo. Acho que foi melhor assim, deve ter sido castigo de Deus pelo o que eu fiz.
— O castigo está apenas começando. — estranhamente aquilo pareceu confortá-la, mas eu a entendia. Eu também sentia como se dor alguma pudesse me redimir. — Então é tolice começar a chorar agora, quando tudo que temos para sofrer é pela espera.
— Eu não estou chorando por mim. Eu estou chorando pelo meu bebe. Ele merecia ter uma vida boa. Era um menino, é estranho, mas agora eu não consigo parar de imaginar como teria sido a infância dele: se ele seria um bom garoto, se ele jogaria futebol bem, se ele teria muitos amigos. Eu daria tudo para saber como seriam as namoradinhas dele.
— Ou os namoradinhos — eu disse, sem me dar conta de que aquilo não era o tipo de coisa a se dizer a uma mãe, mesmo uma que matara o próprio filho.
— Eu não me importaria se ele fosse gay. Eu odiava os gays quando estava viva, mas acho que era tudo por causa da religião e porque o meu Carlos me deixou por um cara. Agora que eu estou morta percebo o quão idiota foi a atitude dele, mas não porque ele gostava de homens e sim porque ele era um canalha, não importando sua sexualidade. É estranho o quanto a gente cresce quando se despe de tudo aquilo que deveria ser.
— Então seu namorado era narniano? Quero dizer… ele estava no armário? Não o culpe, é difícil viver na situação dele, sem se aceitar. O que ele fez foi errado, mas ele estava apenas confuso, assim como você também estava quando fez o que fez. É duro viver num mundo onde você mesmo não se aceita.
— Então você acha que tudo que eu estava era confusa? — Ela disse, incrédula.
— Ouça, eu mesmo já me apaixonei e também fui jovem. Um coração partido faz a gente cometer uma série de coisas que nunca faríamos se estivéssemos bem. O que você fez foi estupidez, mas você tinha acabado de ser largada, estava grávida, tinha quantos? Dezesseis anos?
— Quinze.
— Está vendo? Você era jovem, estava em desespero. Fez a primeira coisa que passou em sua cabeça. Você me lembra Medeia, uma personagem mitológica grega. Todo mundo lembra dela como a mulher mais atroz de toda a literatura clássica por matar os próprios filhos para se vingar do marido, mas pouca gente lembra o porquê.
— E porque foi?
— Porque ela fez tudo para o marido. Entregou-lhe o velocino de ouro: o grande tesouro de seu reino. Matou seu pai e seu irmão para protegê-lo e no final das contas, ele a deixou para casar-se com uma princesa mais jovem.
— E qual foi o fim dela? — disse a inocente moça, talvez esperando por alguma redenção no final daquela história. Infelizmente, como são as tragédias, redenção era algo tão longe quanto o céu era para nós dois.
— Ela morreu sozinha, deixada abandonada em uma ilha, amaldiçoada pelos homens e pelos deuses.
A jovem calou-se, virando-se por um momento a ficar a janela sem, no entanto, conseguir ver nada. O breu do lado de fora ainda era total. Ela pareceu digerir toda aquela informação e talvez calcular as conseqüências de seus próprios atos, por fim, depois do que me pareceu meia hora, mas poderia ter sido um quarto de século , ela sorriu em minha direção e disse simplesmente:
— É justo.
— Talvez seja.
— Mas então… você me disse que foi apaixonado uma vez. O que aconteceu?
— Ele morreu por minha culpa. — disse cabisbaixo, demonstrando que ainda não me sentia forte o suficiente para falar sobre aquilo, mesmo tendo se passado tanto tempo.
— Qual era o nome dele?
— Henrique, eu li em seu santinho de morte, ele nunca me disse e é por eu nunca ter tido a coragem de perguntar que agora eu estou aqui.
— Meu avó sempre dizia — ela sorriu ao lembrar-se de sua vida anterior —  que o diabo mora nos detalhes e o inferno eram todas as coisas não ditas que não pareciam ter importância.
— É.
Percebi que aquele era o momento perfeito para que eu saísse dali. Não importava o quanto minha resposta parecera vaga, eu não queria falar sobre aquilo. Não depois de todos os anos de tristeza que isso causara ao meu coração, destruindo-me por dentro, arrasando todos os meus sonhos, até que por fim eu morresse sozinho, após dois casamentos, deixando uma vida bem sucedida — e vazia. — para trás.
Algo queimava em meu estomago, uma sensação amarga que subia por minha garganta e me causava calafrios. Lágrimas, eu as conhecia de tempos imemoriais, de quanto o céu ainda era azul e o inferno era apenas uma vaga idéia que os cristãos inventaram para se sentirem privilegiados.
De alguma forma, tais lágrimas fizeram-me me sentir despido, fraco e aquilo me revoltou. Não era hora para ceder à depressão que tornara a minha vida um inferno morno tão insuportável quanto era possível.
Caminhei então pesadamente, ignorando o impávido e pesado olhar que o anjo empregava às minhas costas. Em toda minha vida eu tentara me redimir de pecados que existia apenas em minha cabeça, eu sabia exatamente porque estava sendo condenado: eu estava sendo condenado por nunca ter tentando, por ter sido temeroso, por ter sido um covarde.
Naquele momento, entreguei-me nas mãos do desespero, da raiva e da repulsa por mim mesmo e o demônio? Este me devolveu o beijo com volúpia, mas sem poderes sobrenaturais, apenas fortes mãos tateando minhas costas e seus lábios percorrendo meu pescoço, queixo e lábios, de novo, de novo e de novo, não necessariamente nessa ordem.
Eu havia decaído a um nível que já não havia mais permissões a serem pedidas, nos enroscamos feito serpentes nos corpos um do outro, rasgando as roupas que nos cobriam e juntos experimentamos todas as vertentes da luxuria ali mesmo, sem se importar com aqueles que inevitavelmente nos viam.
Asmodeus, esse era o nome daquele com quem eu cometia concupiscências no rubro chão acarpetado, beijou-me novamente no pescoço, descendo sua língua pelo meu torso, ao encontro dos róseos mamilos que eu sustinha rijos, delineados pelos inúmeros anos em que eu freqüentara a academia.
Mordico-os lentamente, depois com mais força, levando-me a um prazer nunca antes sentido em momento algum de minha vida, mas aquele momento estava apenas começando e quanto mais sua avermelhada boca de veludo descia pela minha barriga em direções mais sensíveis ao prazer, mais minha respiração entrecortada se tornava pesada e minhas fortes pernas prendiam seu corpo com mais força ao meu.
Terminando de me enrijecer e fazendo-me ter espasmos involuntários de desejo ele pousou uma forte mão em meu peito e subiu em meu ventre, executando com maestria movimentos rítmicos.
No entanto, aquele momento que em vida parecia explodir em seu ápice em não mais do que dez minutos, em morte não havia limites, levando-me para além do orgasmo, para um mundo em que nunca estive e — sabia — nunca estaria de novo depois que o corpo de Asmodeus por fim me abandonasse.
Ele, é claro, não fazia quaisquer menções de que desejava fazer aquilo, largando meu ventre e correndo novamente com sua boca pelo meu corpo em direção ao meu pescoço, mordendo-o com desejo, puxando meu corpo para perto do meu pela minha cintura. Subiu um pouco mais para morder a ponta de minha orelha e depois passando lentamente sua língua por ela.
Meu ponto fraco. Ali, naquele momento, num raro momento de iniciativa empurrei-o e subi em seu corpo, mordendo cada parte de seu abdômen duríssimo, subindo por seu peito forte e seus ombros largos até seus lábios que eu tanto desejava provar novamente.
Seus lábios tinham gosto de verão e jambo tirado do pé ou tinham gosto de chuva durante uma tempestade. De fato, ele tinha o gosto de todos os amantes que já tive e aqueles que eu deveria ter tido, mas que o destino tomou de mim sem que eu percebesse.
Então, sem dar aviso, ele virou-me apertou com força minhas nádegas, invadindo-as totalmente sem pudor, tomando meu corpo como sendo seu, uma, duas, três, duzentas e quarenta e duas vezes, até por fim saciar sua vontade e dar-se para mim, para que então eu saciasse a minha.
Saciamo-nos dos corpos um do outro, como Adão e Lilith no paraíso, bem antes de Eva e o casamento e até mesmo o romantismo surgirem. Entregamos-nos completamente a luxúria, mas isso me denunciava mais do que qualquer outra coisa, afinal de contas, ele mergulhou em sua própria natureza e eu inadvertidamente me afoguei ao segui-lo sôfrego e sedento.
Fechei meus olhos por um instante e um breve lampejo de arrependimento invadiu meu rosto ruborizado — agora completamente consciente dos olhos que me julgavam — pesadas lágrimas rolaram pela minha face e eu desejei nunca mais ter de abrir os meus novamente.
No entanto, enquanto eu estava lá, com frio, sozinho, nu e completamente entregue a auto-piedade, um beijo invadiu o muro de minha lamentação e este era completamente diferente do primeiro.
Os lábios eram quentes como o sol e beija-los era como sentir o nascer do dia no meu coração. Suas mãos traziam todo conforto que eu precisava e quando eu abri os olhos, encarando o anjo que me salvara da autodepreciação, ele parou de me beijar e sorriu amavelmente, deitando-se ao meu lado.
Encostei minha cabeça em seu delicado peito — agora nu. — percebendo a maciez sobrenatural de sua pele, confortável como a campina em meus sonhos, na qual inúmeras vezes eu me deitei com o rapaz por quem eu de certa forma de apaixonara — mas jamais perguntara o nome.
 Fechei meus olhos novamente, resgatando aquele sonho que tantas vezes me invadira na juventude e enquanto Haniel, o anjo, segurava minha mão eu me senti novamente ali, sob a bruxelante luz do luar, embaixo da fina garoa, dormindo junto aquele que eu amava.
No entanto, fora apenas um sonho e aquele momento fora apenas um pequeno lampejo dele. Quando novamente abri os olhos, estava novamente vestido com as mesmas roupas que o demônio rasgara.
— Você experimentou coisas demais na vida Miguel para se deixar levar por puro desejo. Você por acaso não se lembra como é a sensação de se apaixonar, puramente pelo desejo de se apaixonar? — Ele disse, beijando-me de maneira suave; aquele beijo fez com que eu me lembrasse.
Cai em lágrimas, ainda arrependido de ter descido a um ponto ainda mais baixo do que eu havia descido quando vivo. Abracei-o, buscando em seus braços o conforto que me faltou em toda a vida, mas mesmo a luz da qual ele era feito não era suficiente… nem mesmo em seus portentosos braços eu havia encontrado a paz.
Talvez não houvesse paz para mim, afinal de contas, eu estava indo para o inferno carregado pela minha culpa. Anjo nenhum podia me dar àquilo que eu não merecia. O céu estava carregado de justiça, eu sabia.
— O céu está carregado de justiça —  ele me disse depois que eu me acalmei, com sua voz suave como o vento de primavera — no entanto, justiça significa dar o necessário e fazer o que é preciso. E às vezes, isso traz conseqüências inesperadas.
Encarei-o sem entender a profundeza do significado de suas palavras, ele sorriu novamente com aquele sorriso capaz de fazer o mundo parar de girar se assim o desejasse.
— Você foi o mais baixo que estava disposto a ir para se martirizar. É hora, no entanto, de parar de sentir pena de si mesmo. Aqui ainda não é o inferno e você ainda tem tempo de lá entregar-se a sua culpa, mas há seu tempo. Agora, você está atrasado para uma coisa.
Ele tomou-me pelo braço, me levando corredor à frente passando por cada um dos condenados que agora me assistiam de fato curiosos com a sina que eu cumpria. Éramos ao todo cinco: a jovem garota que abortara, o velho negro que carregava em suas mãos os dados nos quais era viciado, a católica fervorosa detentora do olhar mais acusativo que eu já vira em minha vida, eu com meu coração culpado e o rapaz de não mais do que vinte anos com os pulsos marcados, cuja aparência me era vagamente familiar.
Este sorriu ao me ver, num misto de lascívia e afeto que me fizeram imediatamente reconhece-lo. Afinal, ele era meu anjo e meu demônio.  Ele era o meu céu, salvando-me do caos que fora minha adolescência, a minha perdição, o motivo pelo qual eu estava ali.
Ele era alguém cujo nome eu não devia saber, mas cujos olhos eu reconheceria até no inferno. Então, olhando-me como um velho amigo, pela segunda vez em toda minha vida eu escutara sua voz, desta vez a me dizer:
— Você demorou, estava começando a pensar que você não viria!
Como se eu tivesse escolha.


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Oníricos Palácios

Oníricos Palácios
“Amor é o filho mais sensato de Desejo, no entanto, está sempre se esquecendo de quem é. Sozinho, nada faz senão sentar-se e chorar, deixando-se esvair aos poucos, entregando- se aos seus primos mais próximos, os desgarrados filhos de Desespero: Solidão e Monotonia.
Amor é um brilhante jovem iluminado por luzes multicoloridas, mas é frágil demais para viver muito tempo no mundo real. Sem loucura, para tirar-lhe de sua ilusão construída à distância e lhe forçar a dar o primeiro passo,

Amor seria apenas um sonho num palácio esquecido.”

Ele está na chuva. Não que ele esteja chorando, não é a tristeza que o consome, mas a falta de si mesmo. Em sua mão um coração de cristal translúcido brilha sob a cor dos raios distantes. A noite vibra dançante ao seu lado, mas tudo que ele observa são as cinzas de sua própria existência. Ele não se encontra em suas imagens refletidas.
Está tarde, já passa da meia noite e as belas carruagens já se tornaram abóboras. A mágica da Cinderela se perdera, mas todos continuavam freneticamente dançando no baile. Uma boate era uma boate, mesmo passada à hora da magia onde todas as pessoas são belas e estão bem arrumadas.
O cheiro do álcool inebria. Todos dançam. Todos têm um coração partido e um amor oculto que desejam afogar no uísque e nas batidas rítmicas da música. Todos tentam substituir as batidas do coração por uma melodia sem letra.
Entretanto, ele continua na chuva. Perdido, amorfo em sua mente. Apenas uma peça defeituosa no incomensurável relógio da vida. Já passa da décima segunda badalada noturna e descalça Cinderela corre em direção a sua abóbora.
Encharcada, ela não vê o estranho parado na porta da boate. Se visse, não se importaria, mas ousaria sorrir timidamente apenas pela educação inerente de sua natureza. Apenas para desarmá-lo caso ele fosse algum lunático.
Claramente, o rapaz é uma estranha espécie de monstro voraz que tudo deseja. E não é difícil imagina-lo segurando perigosas fechas fatais que levariam senão a morte, a uma loucura ininterrupta e eterna. Ainda assim, Cinderela sorriria, se o notasse.
Desgrenhada, ela chora. Senta-se no meio fio e chora como nunca chorou antes em sua vida. A magia acabou e ela irrompeu em lágrimas cadentes e pulsantes por seu coração esperançoso. Alguma coisa faltava em seu peito, mas ela não conseguia perceber o que.
Sentada, desgrenhada e já sem atrativos, ela se descobre apenas uma garota tola e suburbana. Seu nome é apenas Joana e singularmente ela percebe no meio da chuva que a tal da magia nunca existiu. Ela comprara o vestido, ela fizera o irmão traze-la de carro, mesmo sabendo que ele a buscaria de bicicleta e ela jamais conhecera o príncipe encantado. Ela deixou de acreditar em magia.
Não notado, abandonado na chuva, o estranho continua sem identidade. Apenas um estranho no meio da chuva, cabisbaixo junto a uma moça que ele também não notara. Sentou-se, virtualmente invisível e cego ao lado dela, antes sequer notar sua presença.
Joana, que agora já não mais se achava Cinderela, foi a primeira a notar a presença estranha ao seu lado. Fitou longamente aqueles olhos cintilantes e em seu coração as multicoloridas engrenagens da magia passaram a trabalhar como nunca antes trabalharam. Ela o beijou longamente, antes que ele se apercebesse dela. Sorriu e correu de volta a boate com seu estonteante penteado e seu magnífico vestido de cetim.
O rapaz demorou a perceber o beijo e apenas deu-se por conta da garota quando ela correu em direção a porta da boate. Com o reflexo dos raios, ela parecia calçar sapatos de cristal.
Levantou-se reticente do meio fio, ainda tentando absorver aquela imagem e aquele gosto salgado do beijo. Havia algo que ele deixara escapar, mas ainda não conseguia identificar exatamente o que.
Seu reflexo no carro o fitou longamente, com um fantasma de um sorriso. Só então ele percebeu quem ele era e o tal fantasma voltou à vida. A própria chuva ganhara uma conotação diferente e ele assobiou uma canção enquanto entrava na boate, cujo nome significava A Dourada.
Raindrops keep falling on my head… Ele cantarolava enquanto passou despercebido pelo segurança. O alto, forte e atlético guarda da porta flertava com uma loira miúda, de não mais de um metro e cinqüenta: uma boneca animada. O estranho, que agora se conhecia muito bem não se surpreendeu.
Todos ainda dançavam ritmados sob a dança dos corações partidos e já altos de bebida, mal se lembravam de suas dores e de quem eram. Até mesmo o príncipe que nem sequer virou-se de sua vodca para fitar Cinderela.
Onde está o amor? Perguntou Fergie em sua música habilmente escolhida pelo DJ. Este nutria um secreto sentimento pelo barman que gratuitamente oferecia um copo de vinho ao estranho que acabara de entrar na boate.
O barman fitava os olhos do rapaz como se não houvesse nada mais belo, nada mais desejável, nada melhor no mundo além daqueles coloridos olhos de arco-íris. A verdade era que realmente não havia. Onde está o amor? Perguntou Fergie.
— Eu estou aqui. — Respondeu o estranho. — Eu sempre estive aqui.
Ele fechou os olhos e apesar de sentir-se molhado e de possuir um aspecto doentio, ele sorriu. Segurou firmemente em sua mão o coração multicolorido, puxou as amarras que o prendiam ao seu pescoço e o lançou ao chão com toda força que havia.
As cores vibrantes da boate pareciam opacas e sem vida em comparação com as dançantes e multicoloridas cores que dançavam ao redor do estranho chamado Amor, cujos olhos possuíam a cor de supernovas brilhantes e diamantes lapidados com luzes de todos os tons prismáticos.
Seus cabelos loiros enxugaram e ele parecia trajado com brilhantes sedas dos tempos antigos, quando os deuses verdadeiros caminhavam com a humanidade em harmonia, ele sorriu e brilhou com o calor de todos os corações que dançavam.
A luz de seu coração multicolorido espalhou-se ao redor de cada ser vivente naquela boate. Iluminar o local era apenas a mínima coisa que a tal essência poderosa fazia, modifica-lo e torna-lo um amplo salão de um castelo em um baile fora a coisa mais irrisória que ela podia fazer. Dada à mudança que se operou em cada um dos corações ali presentes, as mudanças do ambiente mal foram percebidas.
O escritor e seu namorado com uma caveira no pescoço deram-se as mãos e dançaram insólitos diante de todos que atordoavam ainda estavam, eles foram os primeiros a dançar a nova dança, porque jamais dançaram a dança dos corações partidos. Aline, a tal caveira branca e chamativa, sorria levemente indecorosa com sua natureza. Naquela noite ela não se importou em sorrir.
O DJ, percebeu já não mais ser necessário, pois a musica vinha daquele lugar de onde vem os sonhos, inatingível na maioria das vezes em que estamos despertos, de todo lugar e de lugar nenhum ao mesmo tempo.  Desceu de onde quer que estava, posto que sua bancada naquele mundo não existia e pediu uma dança ao barman que o esperava. Já não eram mais secretos os sentimentos que cada um dos dois nutria.
Casais juntaram-se ao som da musica que para cada um era diferente. Não era mais a vontade de substituir as batidas do coração por outras batidas, a musica que agora tocava era de um tom superior, como se ela pudesse entender a alma de cada um, de um jeito que nem mesmo eles eram capazes de entender.
Amor vibrou ao descobrir-se em todo lugar e sorriu alegremente. Deu alguns passos desventurados e girou como um maluco, pois era livre como um quasar errante pulsando pelo universo.
A dama de farrapos multicores sorria desvairada. Seus olhos heterocromáticos, azul e verde possuíam um brilho inocente, de uma alegria sem par no universo, uma alegria descomedida, despretensiosa e sem objetivo. Seus cabelos em tons loiros, azuis e vermelhos dançavam desgrenhados suas próprias danças, eles reluziam dando fulgor a face branca maquiada em tons rosados da jovem mulher.
Apesar de todo aspecto desleixado, ela era linda e ao vê-la Amor brilhou um tanto mais intensamente. Sorrindo com infantilidade e chamando-a para dançar sem tato ou jeito.
Loucura e Amor juntos dançavam apaixonadamente.

Sob luzes vivazes no cubículo negro, o príncipe ébrio maldizia a própria sorte, ainda bebendo vodka, uísque e tequila. Em sua cegueira, ele não percebeu o brilho opulente que levara a todos para uma dimensão celeste, pura e bela. Sozinho com sua bebida, ele ainda permanecia em seu inferno chamado desespero.
Cinderela não mostrou sinais de estar aborrecida. No escuro, sem musica alguma ela fitou seu príncipe com olhar meigo e um sorriso sincero e brilhante. Sua voz suave e aveludada precisava ser ouvida para que ela fosse notada.
— Danilo? — Ela disse temerosa em não ser ouvida.
Ele ouviu sua voz como um sussurro por detrás do mar de vodka, mas ainda assim a ouviu e foi suficiente para virar-se e vê-la. Vestida daquela forma, Joana mostrava-se uma figura onírica, como um sonho ou uma princesa dos contos de fada aos quais ele nunca dera importância.
No chão, ele percebera uma estranha jóia translúcida que ao seu toque adquiriu estranhas cores dançantes. Mesmo não sabendo como ela fora parar ali, ele sentiu aquele coração quente em sua mão como se fosse dele; e cambaleante, cheirando fortemente a álcool ele aproximou-se da onírica imagem que era Joana.
De bom grado, ela aceitou o presente deixando que desajeitado ele o colocasse em seu pescoço, singularmente não havia repulsa em seus modos, apesar de estar sendo cortejada por um bêbado, aquele era seu príncipe e nada nele estava errado.
De olhos fechados, ambos se beijaram e a luz que se seguiu da jóia, iluminada pelo calor dos corações de ambos, invadiu até mesmo a escuridão de suas pálpebras fechadas. No meio do salão, o belo príncipe bêbado, agora apenas de amor por Cinderela, abriu os olhos, reconhecendo ao seu redor o próprio palácio iluminado por luzes de sonho. Sorriu para aquela que seria sua esposa e a mãe de seus filhos.
Em um mundo sem magia chovia intensamente, mas ali as luzes deixaram-se esmaecer para que por trás das janelas a gigantesca lua jorrasse sua luz prateada ao redor dos dois amantes.
Cinderela quedou sua face no forte ombro de seu príncipe e tomados pela prateada claridade, dançaram como Amor e Loucura: apaixonadamente.