quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Oníricos Palácios

Oníricos Palácios
“Amor é o filho mais sensato de Desejo, no entanto, está sempre se esquecendo de quem é. Sozinho, nada faz senão sentar-se e chorar, deixando-se esvair aos poucos, entregando- se aos seus primos mais próximos, os desgarrados filhos de Desespero: Solidão e Monotonia.
Amor é um brilhante jovem iluminado por luzes multicoloridas, mas é frágil demais para viver muito tempo no mundo real. Sem loucura, para tirar-lhe de sua ilusão construída à distância e lhe forçar a dar o primeiro passo,

Amor seria apenas um sonho num palácio esquecido.”

Ele está na chuva. Não que ele esteja chorando, não é a tristeza que o consome, mas a falta de si mesmo. Em sua mão um coração de cristal translúcido brilha sob a cor dos raios distantes. A noite vibra dançante ao seu lado, mas tudo que ele observa são as cinzas de sua própria existência. Ele não se encontra em suas imagens refletidas.
Está tarde, já passa da meia noite e as belas carruagens já se tornaram abóboras. A mágica da Cinderela se perdera, mas todos continuavam freneticamente dançando no baile. Uma boate era uma boate, mesmo passada à hora da magia onde todas as pessoas são belas e estão bem arrumadas.
O cheiro do álcool inebria. Todos dançam. Todos têm um coração partido e um amor oculto que desejam afogar no uísque e nas batidas rítmicas da música. Todos tentam substituir as batidas do coração por uma melodia sem letra.
Entretanto, ele continua na chuva. Perdido, amorfo em sua mente. Apenas uma peça defeituosa no incomensurável relógio da vida. Já passa da décima segunda badalada noturna e descalça Cinderela corre em direção a sua abóbora.
Encharcada, ela não vê o estranho parado na porta da boate. Se visse, não se importaria, mas ousaria sorrir timidamente apenas pela educação inerente de sua natureza. Apenas para desarmá-lo caso ele fosse algum lunático.
Claramente, o rapaz é uma estranha espécie de monstro voraz que tudo deseja. E não é difícil imagina-lo segurando perigosas fechas fatais que levariam senão a morte, a uma loucura ininterrupta e eterna. Ainda assim, Cinderela sorriria, se o notasse.
Desgrenhada, ela chora. Senta-se no meio fio e chora como nunca chorou antes em sua vida. A magia acabou e ela irrompeu em lágrimas cadentes e pulsantes por seu coração esperançoso. Alguma coisa faltava em seu peito, mas ela não conseguia perceber o que.
Sentada, desgrenhada e já sem atrativos, ela se descobre apenas uma garota tola e suburbana. Seu nome é apenas Joana e singularmente ela percebe no meio da chuva que a tal da magia nunca existiu. Ela comprara o vestido, ela fizera o irmão traze-la de carro, mesmo sabendo que ele a buscaria de bicicleta e ela jamais conhecera o príncipe encantado. Ela deixou de acreditar em magia.
Não notado, abandonado na chuva, o estranho continua sem identidade. Apenas um estranho no meio da chuva, cabisbaixo junto a uma moça que ele também não notara. Sentou-se, virtualmente invisível e cego ao lado dela, antes sequer notar sua presença.
Joana, que agora já não mais se achava Cinderela, foi a primeira a notar a presença estranha ao seu lado. Fitou longamente aqueles olhos cintilantes e em seu coração as multicoloridas engrenagens da magia passaram a trabalhar como nunca antes trabalharam. Ela o beijou longamente, antes que ele se apercebesse dela. Sorriu e correu de volta a boate com seu estonteante penteado e seu magnífico vestido de cetim.
O rapaz demorou a perceber o beijo e apenas deu-se por conta da garota quando ela correu em direção a porta da boate. Com o reflexo dos raios, ela parecia calçar sapatos de cristal.
Levantou-se reticente do meio fio, ainda tentando absorver aquela imagem e aquele gosto salgado do beijo. Havia algo que ele deixara escapar, mas ainda não conseguia identificar exatamente o que.
Seu reflexo no carro o fitou longamente, com um fantasma de um sorriso. Só então ele percebeu quem ele era e o tal fantasma voltou à vida. A própria chuva ganhara uma conotação diferente e ele assobiou uma canção enquanto entrava na boate, cujo nome significava A Dourada.
Raindrops keep falling on my head… Ele cantarolava enquanto passou despercebido pelo segurança. O alto, forte e atlético guarda da porta flertava com uma loira miúda, de não mais de um metro e cinqüenta: uma boneca animada. O estranho, que agora se conhecia muito bem não se surpreendeu.
Todos ainda dançavam ritmados sob a dança dos corações partidos e já altos de bebida, mal se lembravam de suas dores e de quem eram. Até mesmo o príncipe que nem sequer virou-se de sua vodca para fitar Cinderela.
Onde está o amor? Perguntou Fergie em sua música habilmente escolhida pelo DJ. Este nutria um secreto sentimento pelo barman que gratuitamente oferecia um copo de vinho ao estranho que acabara de entrar na boate.
O barman fitava os olhos do rapaz como se não houvesse nada mais belo, nada mais desejável, nada melhor no mundo além daqueles coloridos olhos de arco-íris. A verdade era que realmente não havia. Onde está o amor? Perguntou Fergie.
— Eu estou aqui. — Respondeu o estranho. — Eu sempre estive aqui.
Ele fechou os olhos e apesar de sentir-se molhado e de possuir um aspecto doentio, ele sorriu. Segurou firmemente em sua mão o coração multicolorido, puxou as amarras que o prendiam ao seu pescoço e o lançou ao chão com toda força que havia.
As cores vibrantes da boate pareciam opacas e sem vida em comparação com as dançantes e multicoloridas cores que dançavam ao redor do estranho chamado Amor, cujos olhos possuíam a cor de supernovas brilhantes e diamantes lapidados com luzes de todos os tons prismáticos.
Seus cabelos loiros enxugaram e ele parecia trajado com brilhantes sedas dos tempos antigos, quando os deuses verdadeiros caminhavam com a humanidade em harmonia, ele sorriu e brilhou com o calor de todos os corações que dançavam.
A luz de seu coração multicolorido espalhou-se ao redor de cada ser vivente naquela boate. Iluminar o local era apenas a mínima coisa que a tal essência poderosa fazia, modifica-lo e torna-lo um amplo salão de um castelo em um baile fora a coisa mais irrisória que ela podia fazer. Dada à mudança que se operou em cada um dos corações ali presentes, as mudanças do ambiente mal foram percebidas.
O escritor e seu namorado com uma caveira no pescoço deram-se as mãos e dançaram insólitos diante de todos que atordoavam ainda estavam, eles foram os primeiros a dançar a nova dança, porque jamais dançaram a dança dos corações partidos. Aline, a tal caveira branca e chamativa, sorria levemente indecorosa com sua natureza. Naquela noite ela não se importou em sorrir.
O DJ, percebeu já não mais ser necessário, pois a musica vinha daquele lugar de onde vem os sonhos, inatingível na maioria das vezes em que estamos despertos, de todo lugar e de lugar nenhum ao mesmo tempo.  Desceu de onde quer que estava, posto que sua bancada naquele mundo não existia e pediu uma dança ao barman que o esperava. Já não eram mais secretos os sentimentos que cada um dos dois nutria.
Casais juntaram-se ao som da musica que para cada um era diferente. Não era mais a vontade de substituir as batidas do coração por outras batidas, a musica que agora tocava era de um tom superior, como se ela pudesse entender a alma de cada um, de um jeito que nem mesmo eles eram capazes de entender.
Amor vibrou ao descobrir-se em todo lugar e sorriu alegremente. Deu alguns passos desventurados e girou como um maluco, pois era livre como um quasar errante pulsando pelo universo.
A dama de farrapos multicores sorria desvairada. Seus olhos heterocromáticos, azul e verde possuíam um brilho inocente, de uma alegria sem par no universo, uma alegria descomedida, despretensiosa e sem objetivo. Seus cabelos em tons loiros, azuis e vermelhos dançavam desgrenhados suas próprias danças, eles reluziam dando fulgor a face branca maquiada em tons rosados da jovem mulher.
Apesar de todo aspecto desleixado, ela era linda e ao vê-la Amor brilhou um tanto mais intensamente. Sorrindo com infantilidade e chamando-a para dançar sem tato ou jeito.
Loucura e Amor juntos dançavam apaixonadamente.

Sob luzes vivazes no cubículo negro, o príncipe ébrio maldizia a própria sorte, ainda bebendo vodka, uísque e tequila. Em sua cegueira, ele não percebeu o brilho opulente que levara a todos para uma dimensão celeste, pura e bela. Sozinho com sua bebida, ele ainda permanecia em seu inferno chamado desespero.
Cinderela não mostrou sinais de estar aborrecida. No escuro, sem musica alguma ela fitou seu príncipe com olhar meigo e um sorriso sincero e brilhante. Sua voz suave e aveludada precisava ser ouvida para que ela fosse notada.
— Danilo? — Ela disse temerosa em não ser ouvida.
Ele ouviu sua voz como um sussurro por detrás do mar de vodka, mas ainda assim a ouviu e foi suficiente para virar-se e vê-la. Vestida daquela forma, Joana mostrava-se uma figura onírica, como um sonho ou uma princesa dos contos de fada aos quais ele nunca dera importância.
No chão, ele percebera uma estranha jóia translúcida que ao seu toque adquiriu estranhas cores dançantes. Mesmo não sabendo como ela fora parar ali, ele sentiu aquele coração quente em sua mão como se fosse dele; e cambaleante, cheirando fortemente a álcool ele aproximou-se da onírica imagem que era Joana.
De bom grado, ela aceitou o presente deixando que desajeitado ele o colocasse em seu pescoço, singularmente não havia repulsa em seus modos, apesar de estar sendo cortejada por um bêbado, aquele era seu príncipe e nada nele estava errado.
De olhos fechados, ambos se beijaram e a luz que se seguiu da jóia, iluminada pelo calor dos corações de ambos, invadiu até mesmo a escuridão de suas pálpebras fechadas. No meio do salão, o belo príncipe bêbado, agora apenas de amor por Cinderela, abriu os olhos, reconhecendo ao seu redor o próprio palácio iluminado por luzes de sonho. Sorriu para aquela que seria sua esposa e a mãe de seus filhos.
Em um mundo sem magia chovia intensamente, mas ali as luzes deixaram-se esmaecer para que por trás das janelas a gigantesca lua jorrasse sua luz prateada ao redor dos dois amantes.
Cinderela quedou sua face no forte ombro de seu príncipe e tomados pela prateada claridade, dançaram como Amor e Loucura: apaixonadamente.

domingo, 23 de junho de 2013

Concupiscência

Concupiscência
“Concupiscência é a filha mais jovem de desejo. Sua essência é o caos que há em cada beijo, a cada vez que um amante abre sua porta e suas pernas. Ela é um mundo inteiro de coisas a serem descobertas em seu corpo moreno e esguio, um universo de caricias e volúpia. Ela é o início de toda a vida, a compulsão abissal que cada um de nós têm pelo corpo alheio, a fome irracional e libertina pelos lábios do outro; a canção telúrica de atração entre a taça e o obelisco.

Concupiscência é um copo de uísque, um cigarro e um sorriso.

Inteira pernas, coxas e segredos...”

Suor entre peles suadas, suspiros intermináveis dele sob as coxas intermináveis dela. Ela, é claro, era toda sorrisos, mordendo-o como jambo maduro e rindo em apetite ébrio e apetecencia. 
Balançava a cabeça, não em duvida ou negação, mas como fazem os leões a balançar suas jubas magníficas e cheias de sol, ela possuía a lua em suas madeixas de cobre e sua boca carnuda e vermelha eram os desígnios secretos de Marte.
O deus da guerra estava em seus lábios e ela percorria com sua língua molhada sua lança e os dois escudos que ele trazia na base entre os flancos de pelos pubianos. Ele era todo suspiros e gritos, inteiramente entregue a ebriedade do momento. Inteiramente dominado pelo par de olhos verdes demoníacos que o possuíam por completo coroando aquele corado rosto angelical.
Ela não possuía um nome, forças pungentes como aquela jovem de feições concupiscentes são dotadas apenas de instinto. Apenas do movimento eterno de vai e vem sob os lençóis rasgados, ela beija seu umbigo, peito, tórax e boca. Duas orelhas não eram suficientes para sua língua tácita e desejosa.
Alex não entendia como alguém como ela o usava dessa forma. Há quanto tempo ele a conhecia? Mil anos, quatro, cinco? Parecia que ele podia entender toda a alma dela naquele instante, traduzindo sexo em cada movimento suave de seu corpo curvilíneo, parecia a conhecer a anos, mas não fazia sequer um par de horas desde que ela a trouxe de volta ao apartamento dele, conhecendo-o por detrás do primeiro copo de uísque que ele tomava em sua vida.
Sorte? Sorte não era uma palavra que se podia usar naquele momento. Aquele segundo era um mistério, um rito não revelado de um povo esquecido no tempo, de uma magia perdida, queimada junto ao farol de Alexandria. Fechando seus olhos, ele quase podia ver o estandarte fálico que se erguia decaindo em fogo, assim como o seu se esvaia em gozo e excitação.
Ele gritou, desejou parar até. O nível daquele prazer era sobre-humano, não podendo ser real, beirando a base do impossível. No entanto, fechando os olhos tudo era possibilidade e sua mão perdia-se no cabelo dela, puxando-a com força de maneira mais selvagem para perto de si.
Esperou protestos que jamais vieram. Ela ria, ela ria e ria como se soubesse um segredo do qual ele partilhava sem compreender. Como se ela fosse a sacerdotisa ancestral que conduzia a faca ante o peito do adolescente virgem que gemia perante seu destino inevitável. Ele era de fato virgem, mas ela não possuía uma faca, apenas seus beijos, apenas seus lábios, apenas suas coxas grossas e morenas.
Seus peitos eram rijos, fartos, Alex de apercebia disto enquanto os descobria lentamente com suas mãos tremulas. Porém, restava pouco espaço para sua percepção enquanto ela o cavalgava como um potro que acabara de se tornar o novo reprodutor da fazenda: de maneira arredia, incontrolável, tempestuosa.
Quando ele fantasiava, com suas mãos em seu sexo, seus instantes de prazer não chegavam a durar mais que três ou seis minutos. No entanto, já estava ali fazia horas. Quando fora a última vez em que comera algo que não fosse o fruto proibido entre as pernas de sua deusa? Não conseguia lembrar, mas não podia ser muito, afinal não sentia fome de nada que não fosse ela, de nada que não fosse dela.
Alex a tomou com força, quase violentamente, tornando-se homem, o consorte poderoso da deusa, o senhor absoluto daquela terra e como Marte, tomou Vênus nua em suas posições mais animalescas. Ele a usou como se fosse um homem, mas dela não ouviu protestos ou dor.
Dela também não ouviu gemidos, mas podia sentir sua aprovação no modo como ela movimentava-se, suavemente lasciva, entregue em total graça ao que fazia, entregue inteiramente no braço dele.
Ela o prendeu em suas coxas puxando-o cada vez mais forte para perto dela. Arranhando-o lentamente, cada vez com mais força, já voltada novamente para ele, que agora se movimentava como seu igual. Ambos estavam conectados e queimavam em desejo e excitação.
Ele não notou a dor que vertia de suas costas sangrentas, ou mesmo de seus lábios já roxos de tanto serem beijados ou das partes de seu corpo que estavam esfoladas devido à repetição demasiada de seus movimentos. Alex permanecia cego diante da figura a qual era devoto.
Totalmente entregue aos seus desígnios, inocentemente envergando-se cada vez mais dentro dela; ele deixou-se incendiar como uma fogueira, cuja tocha causadora da existência estava nas mãos daquela mulher a quem ele devia tudo. E quando ela acendeu a pira que era o corpo dele, ele incendiou-se por completo, se deixando levar apenas pelo prazer daquele momento que era derradeiro e único,
 Fechou os olhos enquanto seu falo semeava a fértil terra daquela mulher, naquele momento ele viu a explosão das estrelas, o nascimento dos primeiros cometas, a formação da terra. Em cada coisa ele via o modo como desde o principio dos tempos ela existira, o principio casual do desejo, a força que move todas as outras.
Tudo tem o desejo de ser, de vir a existir; ele agora via e entendia que ela era a encarnação vida daquele desejo. Lágrimas caíram de seus olhos em profunda paixão, devotado como um louco a aquele momento.
Alex apagou-se lentamente, exaurido pela força do rito que acabara de cumprir. Jamais saberia seu verdadeiro nome, sequer se ela, de fato, era dotada de nominação, qualquer pergunta perdera-se no exato momento em que ele perdera suas forças completamente extasiado.
Ele esvaiu-se em sexo, fechando seus olhos para nunca mais abri-los.
Ela abotoou os botões de sua camisa, dei-lhe um beijo na testa em despedida e sorriu. Sorriu porque não importava o quanto ele fosse jovem e bonito, ela não sentia remorso por aquela vida desperdiçada; afinal, diante dela, Alex não era nada mais do que um instante de gozo.
Regozijada, tudo que ela conhecia era o prazer. Sua essência era a efervescência sublime do amor. E como tal, o beijou uma última vez em agradecimento antes de ir.
Antes do próximo copo de uísque.


terça-feira, 4 de junho de 2013

As luzes




As luzes

Ando por sobre as quedas,
Mas não é nas pedras da vida que tropeço,
São nas luzes no final da festa,
Vidro quebrado, orbes incompletos.
Oh! Que maravilha é viver


It's ok to feel the rain on my hands, my love, my enemy …
A mesma música, de novo e de novo, enquanto na estrada apenas o som da chuva e dos carros, que passavam rápidos demais para serem ouvidos por muito tempo, imperava. Miguel, no entanto, os ouvia atentamente, sabendo que, cedo ou tarde, encontraria a luz no final daquela curva; a coragem para seu intento.

***
Não que importasse; não que alguém fosse ouvi-la, mas ela gritava mais alto que o som já altíssimo da música, num grito de ajuda, num pedido de socorro, numa única frase repetida tantas vezes que já chegava a se tornar um lema. Feita de titânio, ela sabia que solidão alguma iria a derrubar.
Já haviam sido tantos copos de tequila que agora, enjoada do sal, ela buscava vodka, primeiro misturada, posto que quisesse fingir para o russo que a atendia que não desejava de fato ficar bêbada, sendo que já estava, depois, já despretensiosa, a tomava pura e sem gelo, num ato de puro desespero.
Alguns a chamavam devassa, festa, após festa, semana após semana de beijos vazios e manchas de batom nas roupas de homens variados e talvez, (porque não?) Algumas mulheres. Sinceramente? Não importava mais onde seus lábios seguiam, em quem seus dedos tocavam, porque o que seu coração desejava já não era mais amor e sua mente já não buscava mais o esquecimento.
Houve um tempo em que ela fora especial, uma estrela brilhante na escuridão latente da alma humana, uma alma rara, daquelas que amam intensamente e sempre buscam o bem, o melhor e o mais iluminado para aqueles que com ela compartilhavam a vida. Mas sua luz fora constantemente desperdiçava, usada sem pudor, nexo ou permanência; sua constância sempre fora recompensada com efemeridade. Machucada tantas vezes, ela levantou-se o quanto seus joelhos permitiram.
Quando o amor de sua vida a trocou seis vezes, mesmo depois dos pulsos cortados, dos gritos desnecessários, da alma esmigalhada, ela levantou-se; então veio a esperança: um último namoro por quem mesmo sem gostar totalmente, ela entregou-se; fora destratada, chamada de nomes que tentou esquecer, mas que se arraigaram tanto em sua alma que se tornaram os mesmos pelos quais ela hoje se chama; não demorou muito até que ela mesma terminasse.
Quem diria então que mesmo assim ela continuaria imutável, sempre a boa aluna, a companheira adorável, eternamente ajudando aqueles que permaneciam ao seu lado apesar de tudo. Quebrada por dentro, mais uma vez ela tentou lembrar a si mesma de porque estava viva e qual era o seu único sonho: casar, ter um filho, uma casa, um lar. Mais uma vez desfizeram seus castelos de sonho.
Não que ela fosse santa, por detrás de seus olhos castanhos de tempestade sempre havia maldade suficiente para fazer sucumbir o mundo. Era vingativa, luciférica, desorganizada e seu caminhar trazia consigo os passos amaldiçoados de sua sina: destruir tudo aquilo que tocava; transformar toda a estrada por onde seus pés haviam passado; sua existência era a essência divina do caos, feita somente para provocar mudança. Talvez por isso, autodestruição era o único caminho ao qual conhecia.
No mais, ela raramente falava de seus sonhos, afinal, chorona, passional e frágil do jeito que era; todos a julgariam ainda mais fraca do que já haviam julgado anteriormente. Ainda assim, apesar de todos os seus dissabores, quase morta por dentro, ela sorria grandiosamente esperando de cabeça erguida o próximo golpe, já despida de qualquer esperança.
No entanto, sempre há fé a ser comprada no mercado de ilusões, mais uma vez, uma derradeira vez, ela tentou. Morta por dentro, ela recebeu o golpe, outro após outro. Sua amizade, generosidade, amor, afeto, carinho, aconchego, todos foram destruídos por um motivo torpe, uma brincadeira sem sentido: ela apenas foi mais um jogo, mais uma vez apenas um jogo.
É estranho pensar como esse evento a mudou completamente, afinal, o que a fizera esperar o sol nascer fora imaginar as inúmeras formas de como poderia dar cabo a própria vida. Aquilo se tornara tão grotescamente divertido, tão doentio e tétrico que sua única ação no final do dia fora rir e rir tão alto que cada movimento de seu corpo beirava a insanidade. O ódio que fervera seu sangue evaporou sua alma na mesma medida.
Naquele dia, Verônica Vasconcelos Marques jurou a si mesma que sua morte seria feita de fogo e de luzes e que quando seus olhos, por fim, se fechassem, não haveria pena ou lágrimas em seu enterro, posto que todos que lá estivessem saberiam de como ela havia feito de si mesma a estrela mais iluminada do seu céu em decadência. Naquele dia, verônica decidiu morrer e se tornar uma outra pessoa qualquer.
Cabelos pintados em tons de vermelho, roupas trocadas, meses de academia e ainda assim ela chorava todas as noites sem entender porque ainda não se sentia completa, porque ainda desejava no fundo ser amada por mais que tentasse tantas vezes desistir de si mesma. Viver, para ela, tornara-se uma prisão da qual ousava buscar uma libertação que não fosse a mais obvia.
A verdade é que tudo começou como um efeito placebo: beber e dançar era sua válvula de escape para não lembrar-se dele nos finais de semana, quando ela se sentia mais sozinha. Contudo, nas primeiras noites ela não reconheceu o batom vermelho em sua boca ou o vestido preto decotado que tanto combinava com sua tez morena clara; nunca estivera tão bonita e jamais tão distante de si mesma.
As luzes da festa a ludibriaram; bêbada ela descobriu a libertação do que era de fato dançar como se o mundo inteiro dependesse do caminho trôpego ao qual estava atrelada. Aquela era a mão do seu destino finalmente imperando, finalmente mostrando-a que seu caos tinha lugar onde pudesse ser lei, ser ordem; seu lugar de direito na existência: bem longe do amor, bem longe da significância. Bem ali, na pista de dança, estava a chave para sua felicidade.
Não que fosse fácil, apesar da diversão. Houve momentos em que ela quis desistir, seus pés cansados, seu espírito quebrado quando alguém não a beijava ou noticias distantes do seu amado chegavam aos seus ouvidos. Afinal, apesar de estar se divertido, tudo aquilo ainda tinha um sentido: esquecer. Sua liberdade completa adviria somente do caos, ela sabia, mas era incapaz de se desvencilhar de sua vontade de tentar de novo.
Dos homens que nesta época a beijaram, muitos permaneceram em sua vida como amigos, alguns como amantes corriqueiros, porém não houvera nenhum que com ela partilhasse algo mais que alguns sussurros na noite que transparecia afetos e um adeus solícito quando o dia amanhecia. Não porque eles não quisessem, mas porque ela não deixaria que isto a magoasse, não havia como interromper o curso de sua demanda. Um pedaço dela estava sempre solto por ai e por mais que custasse caro este pecado, ele era a única forma de mantê-la sã, a manter viva.
Até que um homem a beijou fora da pista, tomando dela mais do que qualquer outro havia tomado, dando a ela, mais do que qualquer outro lhe havia dado. Alguém especial que a via como ninguém antes a havia visto. Não que Verônica tivesse voltado a ser quem era, ou mesmo se apaixonado completamente por ele, mas naquelas três semanas que se seguiram, ela foi dele, literalmente dele e de mais ninguém.
O tempo em que ele segurou sua mão fora suficiente para que ela largasse todas as amarras que a prendiam ao seu passado, seu coração cicatrizara e os homens que ainda tinham esperanças em seu amor, desistiram. Ela nunca esteve tão feliz, seus olhos brilharam, ela sorria. Pela primeira vez desde que fizera doze anos, e perdera a virgindade, ela sorria verdadeiramente, liberta da tristeza que tanto a possuía.
O fim não fora trágico, nem coroado de adeus e lágrimas de sangue, fora apenas um sorriso, uma ciência de que ambos estavam em lugares diferentes do caminho; talvez um dia seus destinos se cruzassem de novo, mas não ali, não naquele momento. E com um último encontro, eles se abraçaram e disseram até logo. Sem se beijar, sem fazer promessas, sem pedir nada de volta.
Os dias de cão haviam acabado, sua espera era apenas dos cavalos que prometiam vir nas músicas que ela ouvia dançando insanamente em sua própria sala até cair ao chão exausta. Seus cabelos vermelhos mudaram novamente para o preto corriqueiro, seus lábios e rosto, no entanto, continuavam maquiados, ela brilhava, genuinamente junto as luzes da cidade que lá em baixo festejavam.
Seu momento favorito, antes da pista de dança, era ficar sentada num barzinho próximo à beira da colina de onde o movimento apocalíptico da megalópole era observado em toda sua glória. Não havia beleza em todo o universo que pudesse suplantar o lampejar das luzes da cidade num complexo misto anárquico de cores que formavam juntas um espetáculo único.
Então, entre onze e meia noite, ela entrava iluminada de si mesma e dançava de olhos fechados, como se o mundo inteiro fosse acabar sob os pés dela, bêbada, sem se importar com preço da comanda, afinal, muitas das bebidas que estavam em suas mãos foram pagas por outros, nunca com promessas, nunca pagas com seu corpo, apenas sua presença, apenas sua luz, seus beijos e caricias.
Todos a queriam e todos poderiam tê-la, seu corpo não tinha distinção de ritmos, aceitando em suas curvas tanto o funk do final das festas, quanto o indie das pistas alternativas; suas roupas eram sempre diferentes, como se sua identidade fosse tão volúvel quanto seu humor, às vezes muito fêmea, às vezes como macho e ocasionalmente como um bicho estranho, vindo do Tártaro ou Olímpo, mandado pelos deuses como um presente ou maldição.
Aquela altura, muitos foram os que tentaram dissuadi-la, achando que seu caminho a levaria a autodestruição, de fato, esta era sua intenção desde o inicio, mas naquele momento, ela estava completamente livre, fazendo toda aquela estapafúrdia em cair no chão e beijar os mais bonitos que passassem por puro prazer, sem objetivo.
Aquela altura, ela já estava ciente que seus sonhos eram vãos e que seu caminho, seu destino, era continuar vivendo festa após festa, como os hiperbóreos das lendas; naquela parte de sua vida, ela sabia que, para ela, não haveria felicidade fora da pista de dança.
No fundo, já não mais se sentia sozinha, porque não precisava mais estar com alguém, tanto que não sentia mais o ocasional arrependimento no final das festas, raramente havia lágrimas, e até àquela altura, mesmo a culpa pelos corações que partia foi deixada de lado.
Os poucos que a seguiram, acompanhando-a fora da boate, não permaneceram muito tempo ao perceber que apesar de divertida, ela pertencia a uma outra classe de pessoa: inteligente demais, conhecedora demais, pronta a saber todos os idiomas e ainda assim dançar todos os ritmos.
Quando estavam em suas vidas, eles percebiam que seu caminhar era trajado de ocultismos que ela não demonstrava na balada. A pista de dança era sua religião, a dança, seu ritmo e era um fato de que sua vida era voltada ao sacerdócio do culto informal a Lilith, Ishtar e Maria Padilha, mas ainda assim, fora deste momento nos finais de semana, Verônica ainda rezava a essas deusas, dançando nua ao redor de fogueiras sob a lua cheia e sua casa tinha cheiro de incenso e almíscar.
Mesmo fora de seus domínios, ela mesma era um aspecto da deusa: seu lado destruidor, autofágico; Sequer ignorava isto, estava completamente ciente de seu lugar naquele universo estranho e efêmero.
Os que ficaram foram apenas aqueles que já a conheciam, mesmo antes dos seus primeiros passos trôpegos em festas; restavam também os que a magoaram; agora completamente perdoados, afinal, ela já não se importava em guardar rancor ou ser vingativa, tudo em sua vida era passageiro. Ocasionalmente alguns destes tentavam faze-la voltar a sua antiga forma, completamente sem sucesso.
Cada vez mais bêbada, cada vez mais extasiada em músicas, felicidade, luzes esmaecidas pela ebriez e, finalmente, pelos beijos de pessoas cujo nome sequer significam mais do que sussurros vazios e palavras sem importância, Verônica chegou num ponto tão alto que a única saída seria se jogar de braços abertos num último amplexo suicida.
E era isso que ela fazia naquele exato instante, entre tantos copos de vodka e tequila que suas mãos já eram incapazes de segurar mesmo latas de cerveja. Ninguém sabia, mas aquele gritar de que ela era feita de titânio, linda como diamantes caindo do céu e que ninguém dava a ela mais do que doces nadas não eram nada mais do que seu jeito de dizer que era o fim.
Eram quatro horas da manhã e a chuva dava seus primeiros indícios de que ia surgir lá fora; mas Verônica ainda estava alheia a este sinal, seus olhos estavam fechados e ela permanecia dentro da boate, imersa completamente em seu próprio caráter de divindade alternativa para a qual ninguém rezava.
Então, já bem no alto de seu apogeu hiperbóreo, seu salto magistral foi dado; sua consciência deixou-se expandir violenta, caótica e indiferente a qualquer um que estivesse ao seu lado.
As luzes explodiram, enquanto todos passaram a correr assustados, mas não ela; seu coração sabia o que estava a acontecer: as lâmpadas explodiam, mas suas luzes continuavam, derramando-se em cores pelo chão negro. A música também continuou a tocar, independentemente do caos que se instaurara enquanto as garrafas de vodka se quebravam, misturando-se nas estantes do bar aos outros líquidos que também se derramavam sozinhos.
Ela dançava, de olhos fechados, chorando descalça, havia jogado os saltos em algum lugar do qual já nem se lembrava, não faria sentido procurá-los. Todos foram embora e ela estava sozinha, incomodada não com os cacos de vidro que feriam seus pés, mas com a ciência de que a música, as luzes e o fogo de sua alma diminuíam engolidos finalmente pelo cansaço.
A festa havia chegado ao fim e Verônica estava só no escuro, tremendo de frio, sozinha, com o coração esmagado pelo peso de seu próprio existir. Sua maquiagem borrada e o sangue em seus pés demonstravam o seu status de mortandade, sua epopéia estava se esgotando, com poucas notas a ainda serem cantadas.
Ela não sabia que o amor podia doer tanto assim, mas ela mesma era incapaz de acreditar que havia visto tamanha paixão. Um apaixonar-se tão intenso que a fizera chegar a aquele momento de profunda escuridão. Quem seguraria em sua mão?
Bêbada demais para andar em linha reta, ela caminhou para fora; ainda estava escuro e as nuvens de chuva tomavam completamente o céu precipitando-se no exato momento em que ela abriu a porta de seu carro. Dirigiu em ziguezague pela estrada, incapaz de controlar a si mesma e muito menos o sedan vermelho que estava em seu poder.
Ligou o radio, ouvindo o CD da sua banda favorita mais recente: A is for Alpine e naquela chuva, ela correu já tão morta por dentro que fora incapaz de perceber a ironia na letra.
It's ok to feel the rain on my hands, my love, my enemy …

***
Apenas o som da chuva imperava e de novo e de novo, Miguel ouvia a mesma música do novo CD de sua banda favorita mais recente; sentia-se só, morto por dentro, como se parte de sua alma houvesse explodido em algum lugar daquela colina e sua existência não fosse mais do que parte do destino de uma outra pessoa.
Desistente da vida, já era o oitavo carro que passava sem que ele houvesse criado coragem para seguir em frente com seus planos suicidas. Fechou seus olhos e sentiu a chuva novamente, respirando de forma a tomar coragem. O nono carro vinha em alta velocidade e farol alto.
De forma impulsiva, Miguel lançou-se em direção ao Sedan vermelho que vinha praticamente desgovernado pela pista, a motorista sequer tentou desviar de tão bêbada que estava. Logo depois da colisão, o carro não acompanhou a curva, precipitando-se junto à chuva colina abaixo.
Os primeiros raios de sol despontaram durante as últimas notas do poema que havia sido a vida do rapaz estendido exangue no asfalto; sua missão estava completa, seu lugar no universo havia finalmente feito sentido, no mais, era ali, jogado no asfalto, quase morto, que o destino o queria.
Ali, jogado no asfalto, já morrendo, ele viu o brilhar da luz de uma explosão, para não ver mais nada em seguida.
Ali, no asfalto, a morte o aceitou como a uma canção e partiu, dançando-o.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Sete tons de Setembro




Sete tons de Setembro

O Suicida

Ele corta os pulsos reticente; como quem teme o próximo corte, mas ainda assim continua. Um após o outro, fios transversais de esperança de que seu sangue pague seus pecados e encontre uma porta para sua verdadeira identidade.
Não há vida em seus olhos, nem mesmo dor, talvez um pouco apenas da confusão que cerca sua mente. Nada mais lhe satisfaz por tempo suficiente para que julgue possuir felicidade em seu corpo ou fazer verdadeiro o sorriso que mantêm sempre entre os lábios de qualquer maneira.
A verdade é que ele não morrerá agora. Sua vida não se acabará por entre o fio da lâmina que corta sua pele, mas isso ele já sabe. Tudo que ele precisa é de uma resposta, um sentido, um por quê.
Tudo que ele precisa é se lembrar de quem ele é.
Ou inventar de novo, um novo alguém para ser.

A Desamada

Seu beijo é frio, já não se importa mais em produzir calor. Já não dá mais importância em doar-se por afeto, já não faz mais sentido gemer por amor. Talvez por isso, hoje ela se vende na rua pela primeira vez.
Não perguntarão sua idade, nem devem; ela não tinha mais de dezesseis essa manhã, mas agora nem ela mesma sabe ao certo quantos anos tem, sente-se uma mulher de meia idade, destruída pelo peso da experiência.
Ela é jovem demais pra perceber o mal que faz a si mesma.
No entanto, talvez ela esteja certa em não voltar pra casa: tudo em seu quarto faz com que ela se lembre dele: seu cheiro ainda está nos lençóis manchados pelo sangue da virgindade dela. As lágrimas que ela verteu não foram capazes de limpar a lembrança da magoa que ele deixou por não estar lá quando o sol nasceu.
Abandonada, não havia lágrimas suficientes para o que ela pretendia ousar em sua própria decadência. Tentara inutilmente morrer, mas não possuía intento suficiente para tanto. No mais, percebeu que tentar encontrar a morte era redundante, a morte já havia lhe encontrado no momento em que ele havia cruzado a porta de sua casa.
E ela seguiu tão falsa e vazia quanto seus gemidos.

No embalo de todas as noites

Bêbado, ele segue sua noite com um sorriso nos lábios, tão falso quanto o brilho corriqueiro esverdeado de seus olhos. Seu beijo é doce e seus braços fortes, ele, contudo, irá te abandonar pela manhã na esquina. Não importa o quanto você se importe.
Não é nada pessoal, ele não vê ninguém à sua frente de verdade, são apenas corpos, peitos e bundas; homens e mulheres que irão parar em sua cama cedo ou tarde, porque todos o desejam sem saber quem ele é de verdade.
Seus amigos duvidam que ele saiba algo sobre verdades, tudo que sai de sua boca é alguma forma de mentira, vinda em tons de elogios mal intencionados ou mesmo sobre seu status de felicidade.
Ele se perde na pista de dança, todos o invejam. Não há ninguém que dance como ele, não há ninguém tão brilhante. O maior pesar é que isso é a única coisa sobre ele que não é mentira, seu brilho é real, mesmo que desperdiçado entre um copo e outro de uísque e tequila.
No meio do afago certo ele talvez se encontrasse o que tanto busca.
Mas afeto, para ele, é um meio de fuga da verdade:
Seu sorriso eterno é como ele chora.

Olhos verdes

Seu nome é esquecível como o vento que passa, ele mesmo é ausente e sem importância. Paisagem para qualquer um que passe ao seu lado. Apenas mais uma boca sem sal para aqueles que o beijaram.
Seus sonhos morreram, levados por mãos egoístas e sem consideração, seu coração parou de bater antes disso, traído pela única pessoa que fora capaz de amar em toda sua breve existência.
Sua vida é uma história triste para assustar crianças na fogueira. Indigna de comiseração, cada gota de lágrima em seus olhos fora merecida, mesmo que todo o seu respirar tenha se manifestado em formas de suspiros longos e olvidados de sua verdadeira função.
Todo seu caminhar trôpego é melancólico, incapaz de dividir a verdadeira tristeza da profunda necessidade de exagero. Ele anuncia sua dor nos jornais, sem esperar que alguém se importe.
Para aqueles que se importam, aqueles olhos verdes tornam-se incapazes de acreditar que alguém lhe estenderia a mão, ou mesmo lhe abraçar quando estivesse frio. Ele agarra-se a si mesmo nestes dias, tentando não chorar com a lembrança desolada.
Alguém prometera lhe aquecer nas noites nevadas, mas na primeira chuva, braço algum lhe envolveu o corpo, deixando-o sozinho para morrer de frio.
E ele, de fato, estava morto, a despeito de toda vida que ainda tinha pela frente.

Em pedaços

Cacos de vidro pelo chão, ela não conseguiu nada do que queria. Ainda há muito mais para ser quebrado noite a dentro. Copos, pratos e travessas todos já não mais existiam, como se a presença do vidro a lembrasse do fracasso que se sentia.
Seu marido tentou lhe consolar, mas ela estava além de qualquer consolo, incapaz até mesmo de notar a decepção nos olhos dele quando partiu para dar uma volta de carro e espairecer. Incapaz até mesmo de temer que ele não voltasse.
Ele, no entanto, voltaria para encontrá-la pendurada cinco palmos do chão, sem nem mesmo uma carta a dizer seus motivos, nem mesmo uma explicação, a verdade é que não havia uma.
Ela gritava histericamente minutos antes de seus últimos segundos, incompreensível, os vizinhos não ousaram bater a sua porta, lembravam-se das outras vezes, quando coisas foram atiradas contra cada um deles nos acessos que ela ocasionalmente tinha.
Talvez esse fora o motivo de sua decisão: perceber que apesar de se importar, ninguém queria mais se envolver. Ela estava só porque aquela era a conseqüência da vida que levava. Entre os cacos de vidro, estavam as garrafas do vinho e uísque que tanto lhe acompanharam pela vida, morrer fora sua única decisão sóbria. A única coisa sagrada que faria.
A corda fora seu caminho, o laço a redenção. A cadeira que era seu cadafalso era o altar de seu ritual, para aquele era seu derradeiro feitiço, sua última prece. Ela se tornara um problema na vida de todos que amava: sempre bêbada, sempre gritando, sempre devolvendo dor a quem lhe dava afeto. O pé que lhe deu o impulso fora seu ato de amor, sua forma de provar que, apesar de tudo, se importava; aquele era seu pedido de perdão, sua eucaristia, sua conversão.
Sua religião era libertar os outros.



Olhos Azuis em mares de magoa

A culpa o corroia, ele não entendia bem por que. Era certo que sua demanda era justa, era certo que seu caminho era próspero, era certo de que secretamente ele chorava, ainda mais alto do que se pensaria.
Ainda assim, a culpa o tomava pelo braço, como se fossem seus os problemas do mundo, como se fossem suas as dores das pessoas que ele amava. Como se fosse ele realmente a causa das más conseqüências se abateram na vida de todos.
Em seu choro, ele esquecia suas próprias mágoas, colocando-as em segundo plano, mas a verdade é que as chorava também. Quantas vezes ele vira braços amados a abraçarem outros corpos e devolverem a outros a devoção que ele tanto lhes dava?
Quantos beijos ele ainda iria suportar observar? Quantas vezes ele ainda viveria para ver aquele que ele tanto desejava sobre outros corpos consumindo os desejos da carne e da alma? Inúmeros, seu espírito era forte, mesmo que sua alma fosse fraca e ainda caísse cada vez que visse sombras de lágrimas nos olhos dele.
As palavras de Drummond reverberavam em sua cabeça: Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo, mas estou cheio escravos, minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor.  Era sua verdade pessoal, sua palavras de honra, o cadafalso de sua personalidade.
A noite veio, a madrugada passou em ferro e sangue;  então na manhã veio a chuva e com ela o funeral. Tudo sempre termina com flores e lágrimas, diz o ditado, mesmo que todas as lástimas sejam formas sucintas de adeus.
“Eu sinto muito. Mas havia alguma coisa que eu poderia ter feito?” era tudo que seus olhos azuis diziam enquanto o caixão baixava e algumas parcas pessoas lhe abraçavam para lhe consolar.
O consolo veio apenas mais tarde em forma de comprimidos para amenizar a dor. Foram necessários sete para que o sono viesse, acompanhado de paz. Deitado em sua cama, imaginou os momentos felizes ao lado do amado, num tempo em que a tristeza ainda não havia sido inventada. Em seus sonhos sóis distantes e campos floridos confluíam-se com praias, mãos e carícias não reveladas.
Mergulhou-se inteiramente neles e deles jamais saiu.

O Poeta

Seus olhos são baços e sem vida, mas suas palavras são carregadas de sentimentalismo; são a única coisa que o mantêm ligado a este mundo, é o modo como ele sabe estar vivo. Ainda assim, boa parte de suas palavras são carregadas de mentira, porque ele mesmo é incapaz de definir o que sente.
Seu adeus, não é mais forte que um até logo, seu suicídio é apenas uma forma de dizer que ele se encontrará deitado no banheiro por horas a fio ouvindo Beethoven, seu amor é eterno, mas ele não revela quem ele ama de verdade, talvez porque ele mesmo não esteja completamente ciente de quem é. Talvez ele seja incapaz de amar e ainda não saiba.
Sua vida é carregada de “e se...”, “talvez...”, “mas...” e “contudo”, nunca foi uma linha reta, nunca será. Seu caminho é trilhado com aleatoriedade e caos, seus vinte e dois guias são os arcanos maiores das cartas de tarô.
Seus vinte e dois anos não fazem sentido, se assemelham a uma coleção de histórias estranhas e mal contadas. Sempre parece faltar um detalhe que ele ignora, ele sabe que algo ali não se encaixa, mas se tornou incapaz de lembrar o que é.
As datas não coincidem, seu calendário colapsa, suas lembranças queimaram junto com alguns de seus cadernos. O passado é apenas um amontoado de fotos em tom de sépia em sua cabeça, só porque lhe interessa escrever sobre a tristeza, só porque lhe interessa contar sobre o beijo que dera na praia; tudo aquilo que não era literatura era descartada. Assim, sua vida se resumia as palavras e ele vivia unicamente para escrevê-las.
Morreu sozinho, cercado por vinte gatos em seu apartamento.
Talvez a sua seja a história mais triste: ele foi o único que não fez nada.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Era uma vez em Setembro...



Era uma vez em Setembro...



Perdeu a graça e a graça que perdeu não era aquela que Deus lhe havia dado,
Subestimou a desgraça, menosprezou tudo aquilo que já era seu,
esqueceu; e abandonou o que antes já havia conquistado.


         — Isso é tudo. — ele me disse com sua voz entrecortada, seus olhos me encarando, temerosos de que eu fosse partir ao meio, como uma superfície de vidro. Ainda assim, ele continuou. — Não há mais nada a ser dito, não há mais nada. Acabou.
Seus olhos castanhos ainda me olhavam — quase gentilmente — por detrás dos óculos, ele não sorria, não mais falava, contudo, parecia uma estatua de mármore, parado, incapaz de mover um músculo a esperar o momento em que eu caísse em lágrimas ou mesmo sorrisse, num tom de ironia defensiva, fingindo que não era capaz de sofrer com suas palavras.
Eu continuei encarando o copo de café em minhas mãos, mergulhando profundamente no negrume fumegante à minha frente. Continuei sólido, seguro, minha face lívida, calma e fria como um túmulo, mesmo que minha alma em chamas batesse violentamente e se revirasse, tentando em vão escapar pelas frestas do caixão que eram meus ossos e minha carne. Quanto o encarei, meus olhos magoados, profundamente tristes, mas ainda altivos. Minha voz controlada não possuía resquícios de choro, era irreal, como se algum espírito mantivesse meus lábios em constante movimento, eu não conseguia ouvir a mim mesmo.
Suas palavras reverberavam e reverberavam pelas nuances escuras da minha mente. Toda a minha mente era a voz dele e seus olhos ainda a espera que eu quebrasse em estilhaços.
— Há muito, muito tempo — eu comecei. — eu dei todo o meu amor a uma pessoa. Não posso dizer que foram tempos fáceis, nada nunca vem fácil quando há paixão envolvida. Eu lutei com cada gota de sangue, cada traço do meu corpo até que eu conseguisse o que eu queria. E quando eu consegui, perdeu a graça. Eu olhei nos olhos dele e disse que tudo havia acabado, não importava o quanto ele me amasse, eu o amava de volta, mas não era de mim ficar com ele. Eu me arrependi, contudo...
— Você está querendo dizer que eu vou me arrepender? — Seu sorriso de sarcasmo me atingiu na nuca, como um soco. Não, nem sequer passou por minha cabeça esperar que ele sofresse. Não era justo, com nenhuma das pessoas envolvidas nessa história.
— Não, eu estou dizendo que eu me arrependi. Não importa, era tarde e éramos todos jovens aquela altura. Eu costumo dizer que a culpa foi dele, por tudo que ele me fez depois isso, ou até mesmo que minha decisão fora por uma causa nobre: eu não desejava que ninguém mais se magoasse, nenhuma das outras pessoas que o amaram. Era, no entanto mentira. — pausei minhas palavras, vendo que ele não me ouvia, apesar de ainda me encarar a espera que eu terminasse, ou desistisse no caminho. Ledo engano, não era com ele que eu falava, era comigo mesmo. — Eu fui embora por pura covardia. Eu queria, não posso dizer que eu não queria amar e ser amado, mas eu tinha medo, como ainda hoje tenho, de me atrelar a outra pessoa e não conseguir viver os sonhos que busco. Eu tinha medo de ser jovem e de estar desperdiçando o último raio de sol em minha vida.
Ele sentou-se, cansado de me ouvir e pôs-se a mexer no seu celular, alheio a tudo que eu falava. Não duvido que ele tenha deixado de me ouvir na primeira frase, mas somente ali, naquela altura do campeonato ele percebera que eu não iria cair em pedaços. Não havia nada que pudesse matar o que já não estava mais vivo.
— Desde então, querido, a minha sina é ver o amor crescer e morrer. Não em mim, sempre ao meu redor. Dia após dia e não importa quantas vezes eu namore, quantas vezes eu me apaixone, qualquer amor que venha de mim não vigora, mas tudo que há ao meu redor cresce verde e dá frutos. Essa é minha maldição, esse é meu castigo: Observar paixões belas e brilhantes, enquanto eu mesmo brilho solitário. — Seus olhos voltaram a me encarar, dessa vez, quase trôpegos, silentes, penosos. — Não, não sinta pena de mim, não vale nada. Eu sou uma daquelas pessoas forjadas de solidão e volúpia. Eu não sabia o que fazer com uma relação duradoura, por mais que eu sonhe com isso. Alguns sonhos não são feitos para serem realizados, eles são forjados para que continuemos sempre continuando, sempre caminhando. Eles nasceram para nos dar algo pelo que lutar, mesmo em vão. Eu, no entanto, estou cansado.
Ele esperou. Esperou que eu continuasse. Que amaldiçoasse os deuses e minha vida pelas mil e uma tragédias que se abateram sobre ela. Eu não continuei, não era um desabafo, não era uma lamúria, era apenas um frio e alheio testemunho. Era minha maldição e eu precisava que mais alguém soubesse disso.
Se não ele, um mendigo qualquer da praça lá fora. Seu único benefício foi estar ali, parado a minha frente, bem depois da xícara de café fumegante e negro que eu segurava em minhas mãos.
Deixei-a sobre a mesa, como se não precisasse mais dela.
— Porque você me disse isso?
— Eu não sei. E essa conversa acabou.
Passei ao seu lado, sem o encarar, como ele se ele fosse um fantasma que já não mais estava ali. — talvez não estivesse e eu estivesse apenas revivendo uma conversa que acontecera há muito tempo. Talvez ele fosse um fantasma e eu um velho tolo ainda a relembrar a mesma coisa.
 Sentei-me na cama a espera das lágrimas que não vieram, da tristeza que se recusou a aparecer. Deitei, deixando-me morrer aos poucos enquanto minha alma em chamas escapava pelas brechas que eu deixei, senti muita febre aquela noite.
O dia, no entanto, teimou em nascer e no meio do meu banho, já mais calmo, as lágrimas vieram. Só então eu percebi que suas malas já estavam prontas na noite anterior e que ele partira sem me dar um beijo na testa, sem me dizer — de novo — adeus.
Deixei que ele escorresse junto à água e disse adeus, baixinho, para que ninguém mais me ouvisse além dele: o vento trataria de mandar meu recado.
Se não, não fazia mal: palavras não fariam ir mais depressa os pés que já se foram.
Palavras não o trariam de volta.

sábado, 30 de junho de 2012

Parlamento de Gralhas


A Crônica dos filhos
Epílogo
Parlamento de Gralhas

Tabula Rasa é um dos lugares mais desolados de todo o Vale dos Mortos, aqui vivem as sombras daqueles que jamais tiveram descanso e já não podiam mais viver como fantasmas no nosso lado. Todos aqueles que os conheciam estavam mortos. Seus assuntos inacabados perderam o sentido e eles foram condenados à eternidade vagando sem rumo pelo cemitério do Vale. Eles esqueceram quem são, mas jamais esqueceram porque estão aqui.
Eles se assustaram com a rara visão da Morte e seus dois filhos sendo trazidos a nascente do Estige pelo barqueiro. Os senhores do reino raramente eram vistos naquele lugar esquecido. E para muitos, era a primeira vez que o rosto da Morte lhes era mostrado em sua própria pessoa.
No fim da quase interminável necrópole há um grande portão de ébano e ferro, não é possível ver nada por detrás de suas barras e ninguém, a não ser a soberana do Vale, jamais pisara sob aquele chão. Nem mesmo seus filhos.
— Aqui é o fim da linha para vocês, Azrael e Tertuniel. Daqui, eu sigo sozinha, pois sua irmã não merece cortejo além de mim. Eu sou sua mãe e a mim cabe o fardo de enterrá-la.
—O que tem do outro lado?
— Nada. O puro e simples Nada.
Ela levantou sua mão e respirou pausadamente enquanto as trancas abriam-se por sua ordem. Salve a deusa dos mortos, eles gemiam. Salve a senhora do abismo, eles gritavam. Salve a senhora dos mortos, eles choravam.
Mas mantenham eternamente luto, pois um imortal acaba de morrer. Assim, eles se abriram.
Inexistência era o vazio depois dos mundos, o escuro sob os pés, o abismo sobre a cabeça, nada havia depois do portão, a não ser um grande monólito de mármore negro, que estranhamente conseguia destoar de toda escuridão.
Em dourado, nomes brilhavam em seu corpo, nomes esquecidos pelo tempo e pelo destino, aquilo era Inexistência o último resquício dos deuses que já morreram. A última lembrança dos esquecidos.
Dê-nos um nome. Dê-nos o nome do deus esquecido. Dê-nos o nome do morto e deixe que ele descanse em paz em seu esquecimento, agora que já não existe. O que é imortal, não morre, mas deixa de existir, por toda eternidade e em todos os mundos. Nós, a escuridão, exigimos um nome. — Disseram vozes distantes, dentro da escuridão.
— Ela era o corvo que sobrevoava a batalha, ela era a morte que presidia a guerra. Era a filha mais nova da morte, conseqüência de seu envolvimento com o mais profundo dos abismos. Ela era minha penitencia por matar a Harpia que guardava o poço, ela foi o meu castigo por criar o meu reino. Ela era o meu reino, e agora que está morta, caminhemos em tristeza. A terceira filha da morte está morta e seu nome era Morrigan.
 O anjo tocou o monólito de pedra e sentiu tudo que Morrigan significava se esvair em dourado, no fim, tudo que restou de sua filha e de seu desejo de poder, foi seu nome escrito naquela pedra.
Sem olhar para trás, foi embora e os portões choraram uma última vez.
— Acabou. — Disse a Morte.
— Que ela descanse em paz. — Responderam seus filhos.
Pela primeira vez, choveu no Vale.

Chovia.
Não era aquela chuva costumeira de tristeza e desilusão, não era mais disso a chuva banhando a cidade que era a alma de Pablo. Neste dia chovia excitação e felicidade, enquanto os diminutos habitantes de seu sonho percorriam felizes as ruas de nuvens e olhavam para cima, esperando pacientemente o fim. Eles estavam felizes mesmo assim.
Pablo caminhava vagarosamente em direção a sua casa, mas no fundo ainda possuía aquela vã esperança de eternidade que tem todos os jovens. Mesmo sabendo de sua morte iminente, ele achava que nunca ia morrer.
Enquanto ele caminhava, um homem brigava com a esposa e juntava algumas latas de cerveja enquanto tentava ligar o carro. Já estava na décima, quando finalmente o Fiat 2001 pegou.
Atrás de si, diminutos olhos o observavam. Aves negras de todas as épocas do mundo, aquelas que tanto fizeram historia e nunca são lembradas. Os corvos da torre de Londres, os corvinais olhos de Odin, a mulher-corvo que casou com Adão, o corvo do mundo dos sonhos, Nunca Mais e os tantos outros corvos que vieram de tão longe para assistir Pablo em sua última caminhada.
Eles observavam enquanto ele cantava. E no fundo, riam-se com suas vozes de pedras da ironia daquela canção.
“A partir deste ponto, é instintivo, até os labirintos de uma estrada, a cada lugar contém um mapa de tudo, de tudo! Evidências, na marcha de uma formiga, no pulso do oceano.” A Crow left of the murder, o corvo que restou do assassinato, da banda Incubus, tocava em sua voz inadvertidamente. Ele cantava a musica certa para o seu momento, mas não conseguia ver isso.
O homem chorava. Correndo em direção a lugar nenhum ele dirigia perigosamente. No fundo, ele queria morrer. No fundo, ele queria matar alguém... um alguém que era sua esposa.
Pablo sentiu os pelos de seu pescoço eriçarem, pela primeira vez em sua caminhada ele percebeu que estava sendo observado e tremia. Caminhou um pouco mais apressadamente, imaginando ouvir os sussurros de uma historia. Mas não entendia os fragmentos.
Naquele momento ele temeu por sua vida.
No meio da estrada, um corvo morto retorcia-se a beira da morte e isso fez o garoto parar. O corvo falava em sons pétreos, mas ele repetia apenas uma frase.  Eu contei minha historia — ele dizia. Aquilo deixou Pablo em choque.
Ele parou de cantar, olhando ao redor sem entender se aquilo era um sinal ou um mero acaso. Ele teve o ímpeto de perguntar qual era o nome daquele corvo, mas ele parou percebendo como aquilo seria demasiado tolo.
Aquilo o fez refletir sobre matar Morrigan. Aquele corvo de olhos vazados e agonizante o fez parar para perceber que talvez ele só tenha nascido para aquele momento e que tudo em sua vida o voltou para aquele milésimo de segundo. Para o momento em que ele parou no meio da rua e percebeu coisas sobre os corvos que nunca antes havia pensando
Coisas sobre ele mesmo que antes esquecera.
Um carro vinha na estrada e dobrou rapidamente a esquina. Pablo teria sido atropelado se não tivesse jogado seu corpo para trás e escapado com vida daquilo que seria um trágico acidente. Por um segundo, ele respirou aliviado e assistiu a revoada de corvos tomarem o céu.
Eles gritavam em pavorosa cadencia: Aquele é o corvo que restou do assassinato, ele nos contou sua historia e agora morrerá. E alguns gritavam ainda mais tormentosamente: Pablo, Pablo, Pablo.
O garoto caminhou perseguindo os corvos rua abaixo. Eles gritavam seu nome e repetiam sempre à mesma frase, mas na cabeça dele era como se eles falassem coisas que nunca saberia se não os seguisse.
Alguns corvos se perdiam do bando, quebravam suas asas e caiam alquebrados ao chão, gritando ainda as mesmas frases. Pablo parou e todos eles empoleiraram-se na porta de sua casa. Alguns passos o distanciavam de Miguel, uma dezena de passos e mil corvos olhando em sua direção.
Então, dessa vez numa voz melodiosa, sem aquele costumeiro clac de pedras batendo umas contras outras, eles disseram um nome e então tudo que Pablo conhecia sobre a vida mudou.
Ouvir aquele nome era como ouvir todos os sons do universo e ver a face de todos os deuses brilhando frente aos olhos. Era como sentir os sonhos de cada criatura viva no coração.  Ele sentiu-se flutuar no tempo.
O homem dirigiu o mais rápido que pode e fechou os olhos. Rezou intimamente pela paz e para que nunca mais brigasse com sua esposa de novo. Era tarde demais, entretanto. E ele não viu o rapaz a sua frente que caiu desmaiado a porta de casa. E nem viu a arvore em que bateu. Era tarde demais para qualquer arrependimento. Ele estava morto e o garoto respirando lentamente.
Pablo abriu os olhos com sofreguidão e pouco ouviu dos gritos do irmão que o via cair. Tudo que ele via era o olhar dos corvos e som cadente do Nome, naquele momento ele entendeu seu lugar no universo e tudo que o trouxera até aquele lugar através de todas as coincidências.
Ele entendeu a rota das estrelas, a ascensão e o declínio de todos os deuses deste mundo. E então, seus olhos se fecharam e ele estava morto.
Do que havia do outro lado, só os corvos sabem.


O corvo que restou do assassinato



A Crônica dos Filhos

 III
O corvo que restou do assassinato

Suas linhas eram uma estratégia de batalha, finos traços como espadas, duras, frias e mortíferas. Suas curvas, como arcos, disparavam desejos e caricias, mas eram somente uma armadilha para sua boca de dentes afiados. Ela era toda uma arma poderosa e seu hálito despertava os loucos dominadores. Sua voz era o exaltado som da tirania.
O rapaz de veias saltadas e olheiras profundas tremia a cada toque dela. Cada parte de sua alma era corrompida pelo desejo primitivo de domínio. Ele era um pouco de Stalin, Churchill ou Hitler, um dominador nato que aprendeu nos campos do RPG como tomar cidades e mundos. Seu jogo atual era a própria realidade, quando a deusa da guerra veio ter com ele em sua cama.
Seus olhos exprimiam loucura, rubros de cansaço, viravam-se nas órbitas num misto de prazer e dor que homem algum jamais sentira. Temia a morte nos braços da Guerra, mas não podia conter o ímpeto de desejar ter o mundo inteiro a seus pés, o mesmo mundo que o rejeitou a vida toda.
— Em breve, meu pequeno, você terá tudo que deseja. Eu abrirei as portas do inferno e criarei meu próprio mundo dos mortos, aqui em cima. Eu serei a rainha imortal de tudo que existe... e você se tornará o meu primeiro rei.
—Minha rainha... — Debilitado ele a encarava com fome, mas não a fome que um homem sente ao ver uma mulher. A olhava como se ela fosse um reino a conquistar, um continente desconhecido e cheio de riquezas, um universo outrora intangível. Seus olhos queimavam como se ela fosse o próprio mundo que oferecia e em sua febre ele delirava, mesmo quase morto pelo toque dela. — Porque não já começamos?
—Ainda não estamos na hora correta, apenas na sexta hora desta noite, poderemos abrir os portais que ligam os dois mundos. Mas não se preocupe, temos muito que fazer juntos até lá.
David tremia de excitação... e de tipo de terror tão profundo, que apenas um homem ao chegar no reino mais abismal de Hades poderia conhecer.

Reza a lenda, que ao fechar a Caixa de Pandora, Epimeteu impedira que o maior de todos os males se libertasse: o de conhecer o dia da própria morte. Para Pablo, a caixa abrira-se completamente e o terrível dom da antecipação chegara-lhe aos ouvidos.
— Como é morrer?
—Eu não sei bem, só minha mãe conhece todos os segredos dela. Geralmente, uns segundos antes de morrer vocês entendem toda a conexão do universo com suas vidas, por um ínfimo segundo vocês possuem todo o conhecimento que até os anjos desejam, mas então vocês morrem e tudo deixa de fazer sentido.
— Eu não quero morrer, não quero deixar meu irmão sozinho. Porque eu? Justo agora? Minha vida toda sempre foi cheia de tragédias e justamente quando as coisas começam a melhorar, eu morro. Isso não é justo. Não é justo que meu irmão fique sozinho.
— Porque era sua hora, mas você ao menos a está aproveitando. Não se preocupe com seu irmão, eu cuido dele. Miguel ficará em boas mãos.
— Você não vai ficar comigo depois que eu...?
Azrael sorriu, mas por detrás de seu sorriso havia uma tristeza que se refletia na chuva, no vento e em cada coisa viva ao seu redor. O mundo inteiro era apenas um mero espelho de sua dor.
— Eu virei te buscar. Eu prometo.
— E depois?
—Depois você segue seu caminho e eu não sei se te verei de novo. Você tem uma hora pra se despedir do seu irmão e pegar o que precisar, em duas horas a noite estará pronta para abrir sua porta.
— Espere. — Disse ele já saindo em direção a casa. — Porque você me levou para o funeral da sua cunhada? Você poderia ter falado com seu irmão sem mim.
— Porque eu queria que você visse o mundo em que estava entrando. Você sabe que se desistir, ainda vai viver. Eu queria que você tivesse a chance de desistir, se você me entende.
Pablo apenas sorriu e entrou. Azrael não sabia se de fato ele voltaria, ou se simplesmente não conseguira dizer adeus. Esperar sozinho no carro era a única coisa que ele podia fazer, afinal, ele estava pedindo para um garoto que ele mal conhecia deixar a família e correr em direção a uma missão suicida. Ele estava apenas pedindo pra alguém destruir um anjo.
— Pronto. Eu trouxe a faca que sua mãe me deu e uns casacos. Deve estar fazendo frio no sul, mas acho que isso é tudo que eu vou precisar.
A faca de vidro cintilava, pronta para matar qualquer um que ousasse chegar perto de seu afiado gume. Era uma magnífica arma, mas que fazia Azrael tremer em repulsa.
—Cuidado. Eu não sei por que minha mãe te deu essa faca, mas ela é realmente perigosa. Facas como essas mataram outros deuses antes, destruíram civilizações, vidas e romperam o equilíbrio. Então, não a segure como se ela fosse a coisa mais segura do mundo.

Nu, o jovem David tremia de frio no centro do circulo de sangue. Sua pele branca reluzia sob a luz do crepúsculo e contrastava com o vermelho sangüíneo que lhe escapava por entre as veias do pulso. Ele estava morrendo e sua morte romperia as portas entre os dois mundos.
Girando em sentido horário, ele reverenciava os cinco símbolos da morte e a cada um repetia os dizeres que aprendera de Morrigan. Para ele, eram apenas sons vocálicos inexpressivos, mas ela entendia bem a antiga língua da Suméria.
Faca que corta os fios da vida, saúdo-te minha fiel amiga. Corte-me com seu afiado gume e lança-me ao negrume. Diante da escuridão, eu volto dos mortos. ele disse ao primeiro símbolo. Ampulheta que marca as horas dessa existência sofrida, pare de contar os segundos da minha vida, pois empresto os meus anos aos finados, que se fundam novamente os ossos quebrados. Diante da escuridão, eu chamo os mortos.ao segundo. — Cinzas de um coração partido, voem no vento e se tornem o arauto da morte, pois ao recitar o nome da trindade do destino, eu dito agora a minha sorte, sou Clotho, e teço, sou Laquesis, e sorteio, sou Átropo e corto o fio que me liga a esse mundo. Diante da escuridão, eu morro junto aos mortos. disse perante as cinzas do coração de sua mãe. Romã, fruta que cresce nos bosques do murmúrio, eu banqueteio juntos aos arautos do mau augúrio, me faça um deles, me abra os portões, pois agora eu clamo sob os nomes anciões. Yaveh, Izrail e Lúcifer. Diante da escuridão, eu como com os mortos e me torno um deles. ao terceiro. — Ankh, símbolo da vida eterna e da ressurreição, seja nossa luz e nosso guia, como os deuses faraônicos rezaram diante de vós um dia: traga-nos de volta da escuridão. Diante da escuridão, eu guio os mortos.
Então, após virar-se aos quatro pontos cardeais, já a beira a morte, ele tomou a faca que havia sido o primeiro símbolo e disse as palavras finais na língua mais antiga dos homens.
Alma humana, sopro divino da mais elevada existência, chave dos reinos, eu a entrego nas mãos da filha do abismo e da morte, daquela quem os anjos chamam Morrigan, o corvo. E que de novo, aqueles que se foram caminhem pela terra. Diante da escuridão, eu abro a porta e me liberto.E cortou sua própria garganta em agonia.
Morrigan ria descontroladamente vendo que seu pupilo conseguira sacrificar sua própria vida, para ter o que desejava. Ela havia esperado uma era inteira, antes que pudesse evocar o seu alto poder. Era chegado o seu momento e ela finalmente seria a herdeira de sua mãe. Ela abriu os braços e libertou sua verdadeira imagem: um assassinato de corvos, voando uns sobre os outros para comer a carne de David, o bando brigava pelos olhos, uma iguaria para esses animais, quando Azrael e Pablo chegaram. Em suas vozes pétreas eles cantavam uma desconhecida canção...
Um de nós busca a carcaça e dois outros conduzem o deus caolho, uma trinca de corvos é uma deusa e em sua justeza, o homem nos chama assassinato, são muitos de nós aqui nesse dia e para aqueles que perderam na guerra o nato juízo, nós os conduzimos à morte, mas nunca ao paraíso.
Os corvos desvaneceram em nevoa, entrando pelas frestas do assoalho e abrindo as portas que trancam a escuridão por debaixo da terra. O ranger dos portões telúricos assemelhavam-se aos gemidos dos enfermos e ao último suspiro daqueles que sofrem dores de metástase. A marcha dos mortos era de uma cadencia fúnebre, rítmica como um coração moribundo, eles subiam por uma escada de mármore negro que se fez ao redor do circulo.
— Rápido, chame-a pelo nome. — Gritou Azrael para Pablo. — Você precisa invocar o verdadeiro nome dela. Seu nome está na canção, é o coletivo de corvos, o nome que os homens lhe dão.
— Aqui neste momento, pelo vidro tártaro em minha mão. Eu te invoco, Assassinato.
Do que restava na nevoa, ela reapareceu. Seus olhos negros brilharam faiscantes e sorridentes, ela sabia que nada poderia detê-la agora. Apenas sua morte traria os mortos de volta ao tumulo e um mortal jamais conseguiria mata-la.
— O que você acha que está fazendo? Me invocar na minha casa e apontar uma faca para mim... — Morrigan sorriu como quem brinca com uma criança — Você é tolo se pensa que vai me deter, mortal. Muitos tentaram me matar, mas ninguém é capaz de destruir a guerra. Você é só um garoto tolo. Como acha que vai me parar sozinho?
De sua clavícula ela arrancou um machado de guerra e lançou-se contra o garoto como um cavalo em disparada. Pablo desviou debilmente como pode, mas ele percebia que por hora, Morrigan estava apenas brincando com ele. Em vão, ele tentou estocar sua faca no peito dela, mas ela desviava sua mão com golpes da parte lisa do machado.
A marcha dos mortos continuava cadenciadamente, enquanto os gritos de lamento davam lugar a gritos de euforia, ainda mais assustadores que os primeiros, ossos rangiam misturando-se ao som de pele se desprendendo, um cheiro nauseabundo vertia do buraco no piso, dando idéia das coisas putrefatas que escapariam por ali.
Azrael mantinha-se parado na frente do buraco, pronto a enfrentar quaisquer criaturas que porventura chegassem ao topo, mas sua atenção estava dividida entre seu posto e a luta que Pablo travava contra sua irmã, o mortal estava perdendo e se mostrava cada vez mais cansado.
Morrigan, no entanto, parecia fatigada e sua dança com o garoto já dava sinais de perder a graça, sem mais delongas, ela deu um golpe que o fez soltar a faca e lançou-se sobre ele, prendendo o cabo do machado em sua garganta, e o erguendo contra a parede alguns centímetros do chão.
— Como você está se sentindo?Cansado, não? Azrael não pode me tocar, porque não se pode derramar sangue de família sem pagar as conseqüências, sem subverter o nosso mundo em sangue e ferro. Você está preparado para morrer em dor e sofrimento? Preparado para se afogar em seu próprio sangue? — Ela perguntou em tom de escárnio. Seus olhos corvinais eram ainda mais amedrontadores de perto, mas estranhamente Pablo sentia-se calmo, até mesmo atrevido o suficiente para respondê-la.
— Eu sei quando eu vou morrer e não vai ser assim. E não hoje. — Disse cuspindo sangue na face de sua inimiga, sufocando em agonia, mas confiando em seu amado.
— E quem irá te salvar? Azrael não pode se intrometer, porque senão eu quebro o seu pescoçinho e se ele me matar, ele destrói tudo aquilo que ele mais preza, porque a Lei subverterá tudo em Abismo. Nem mesmo aquele que te deu a faca pode te salvar, agora. Eu serei a herdeira do trono da morte!
Azrael observava descrente sua irmã, o que ela estava dizendo parecia ainda mais insano do que todo seu plano. Ela não poderia ser herdeira de nada, Izrail estava viva e reinava soberana no Vale das Sombras.
— Você não pode se tornar a herdeira do trono de nossa mãe, Morrigan. Ela ainda está viva. Lembra? — ele disse, antevendo a resposta de sua irmã.
— Aquele mortal insolente que ela colocou no lugar dela não é minha mãe! Ele pode ter todos os poderes dela, mas pelo Estige! Pelo Abismo! Ele não tem o direito de se sentar no trono dela e coabitar conosco. Felipe Casemiro não é um de nós!

Do buraco um cântico elevou-se acima da marcha dos mortos. Uma canção de cores púrpuras e negras, uma canção de fogo, ferro, lágrimas e sussurros que flutuava em nuvens densas, como a chuva que se desprende da tristeza de um oráculo. E, ao lado de Azrael, Felipe Casemiro surgiu, sorrindo com o maior dos escárnios perante aquela que evocava seu nome pelo Estige e pelo Abismo.
—Então eu não sou a própria morte? Eu não sou da família e, portanto eu posso derramar seu sangue, Morrigan. Foi você mesma que acaba de dizer isso perante os deuses mais escuros. Agora, você descobrir que não é tão fácil assim roubar o meu trono. — Com um aceno ele lançou o machado dela ao outro lado da sala e deu dois passos em sua direção, antes que a mesma se lançasse contra ele e parasse a sua frente.
— Se você pudesse me matar, já teria feito. Apesar de suas palavras, minhas palavras não mudam o fato de que você teme a Lei, como todos nós. E se me matar, arriscará todo o seu mundo. Você não tem coragem de mover um músculo contra mim. Afinal, se o fizer, você também estará morto.
— Eu não preciso mover nenhum músculo contra você, filha. Tudo que eu preciso fazer é dizer uma palavra e então você estará em Inexistência e seu nome será esquecido para sempre.
—Você arriscaria mesmo todo o Vale das Sombras, por minha causa? Então diga essa palavra tão assustadora.
— Vire-se. — E ela se virou.
A faca enfiou-se inteiramente no peito de Morrigan, e nem ao menos a mais vaga esperança de que o mundo fosse destruído com sua morte lhe restou. Não fora Felipe que a matara, mas Pablo que segurava firmemente a faca que perfurou o seu coração sombrio.
— Adeus, desgraçada. — Disse a Morte. Morrigan fechou seus olhos e se dispersou em corvos que explodiram em areia negra, unindo-se ao sangue no chão.
Os ventos anunciavam que a filha mais nova da morte estava morta, enquanto um último de seus corvos empoleirou-se no ombro de Felipe e se desfez.
A marcha cadenciada dos mortos cessou, escandalizada. Aqueles que ainda tinham olhos voltaram-se a própria Morte e tremeram. Os olhos de Felipe cintilavam azuis celestes, mais fantasmagóricos do que costumavam ser. Ele soprou como quem sopra uma vela sem importância.
E como os corvos, os mortos se foram.